sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Voa mais alto: olha para Fernão!

"Para a maior parte das gaivotas, o que importa não é saber voar, mas comer. Para esta gaivota, no entanto, o importante, não era comer, mas voar. Mais do que tudo, Fernão Capelo Gaivota adorava voar."

Não sou dada a ídolos: não me parece bem plagiar almas, decalcar caminhos, mimar gestos! Já não seria eu, e depois em que me veria?
Tenho, sim, os meus faróis - Deus, o meu Pai e Lao-Tzu, que vão iluminando os meus olhos para que consiga ver todas as parcelas do Caminho, até as lages mais pedregosas.
E há o Fernão!
O Fernão!
O Fernão é um companheiro que encontrei há muito tempo. Pouco mais era que criança quando descobri que, para além de mim, havia alguém para quem voar mais alto era um dever.
Foi, então, que descobri o Fernão.
Quando nasci, de onde vim, onde estava eram coordenadas que faziam adivinhar para mim uma rota tão diversa: um caminho simples, cómodo, regular e solarendo - uma daquelas veredas nem largas, nem estreitas, nem claras, nem escuras, com árvores plantadas para a ensombrar. Costumeiro, portanto.
Mas a claridade do céu nunca deixou que assim fosse!
Um caminho cómodo, com sombra, não deixa ver o brilho da Luz: o que primeiro aprendi quando segui por um deles foi saber que aquele não era o meu Caminho.
A claridade do Céu, a Luz, é uma paixão que me faz voar desde sempre.
Tal como Fernão, voo por puro prazer, pelo prazer de ir mais além. Pelo designio de voar!
E, assim como ele, já caí fulminada, estatelando-me; mas com a mesma vontade de Fernão prossegui a voar, cada vez mais alto, mais veloz e com mais arrojo.
Não fui, como Fernão, tentada banir: é que quanto a mim tal não seria possivel, tão-só porque a mundanidade é horizonte que não me assombra.
Sei que foi a voar que descobri que o Mundo é verdadeiramente belo, que os Homens são prodigiosos e que a é Vida estonteante, pois com a Luz e do alto tudo se vê nítido, sem mácula.
Vi, também lá do alto, que o Caminho que sigo é dos mais belos: tem imensas pedras, pedregulhos até, razão porque, às vezes, sofro quedas e pequenos ferimentos; é a céu aberto e por isso quando chove, molho-me mesmo e quando a estiagem é séria, há abrasões mas, acreditem, nada melhor há que sentir as emoções mais profundas na pele! Mas o melhor mesmo é que faz adivinhar que, bem ao fundo, tem fim. Magestoso! Uma garganta sobre o infinito! Sempre a céu aberto e com muita Luz, uma verdadeira bebedeira de Luz!
Percebi, por fim, a ânsia do voo e da Luz: preparar-me para o infinito!
Por isso, sempre que no meu Caminho outro Caminho se cruza, com um sorriso digo "voa mais alto: olha para Fernão". E hoje já somos um bando!
E em bando, voando, descobrimos o que sentiu Fernão: que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta e sem essas razões a perturbarem-lhe o pensamento, vivem de facto uma vida longa e feliz.
Hoje sem tédio, sem medo e sem ira, eu sou feliz. O meu bando é feliz.
  

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