sábado, 25 de setembro de 2010

Muitas vezes longe, nunca com distancia

Estar ao longe, viver ao longe é um modo de vida que, há muito tempo, aprendi.
Não se escolhe, nem se aprende, sequer mesmo se chega a saber. Mas é natural como estar perto.
Houve um tempo em que fui menina, em que segui a rota de me fazer mulher, e até aí vivi uma vida cómoda. Maneirinha, como diriam aqueles velhos sábios a quem fui ouvindo conversas ao fim da tarde.
Nessa altura a lonjura era a marca da aventura, das férias e das brincadeiras.
Mas cresci.
Os olhos abriram-se ao Mundo, a Alma ficou afoita e a vontade criou mesmo asas: foi o Tempo de partir, de deixar ao longe os meus esteios.
Com eles e das primeiras centenas de quilómetros que percorri fica a lembrança de que nunca é o espaço que cria a distância porque nunca deixámos de ser uns nos outros.
Depois quando veio a Vida desafiar-me, ousando-me ensinar que nunca vivesse com a distância, parti mais uma vez: partimos os dois, eu e ele, o Pedro.
Mais tarde, quando a Vida me escolheu dizer "nunca te distancies de ti", ficámos os três: eu, o Pedro e a Maria.
Mais um companheiro se juntou, agora, a nós nesta viagem.
Hoje, neste dia, vivo o longe, ainda que sem fazer o "pleno" que, tantas e tantas vezes, alcancei: eu em Madrid, a meu lado, como companheiro ímpar, o meu menino; lá, bem longe, algures por perto do Porto, está ela, a minha menina; um pouco mais perto, o meu pai, pela Guarda; ainda mais longe, muito mais, a minha mãe, por Lisboa.
Mas, como sempre, nunca existe distância!
Somos os acrobatas do Tempo, "globetrotters" do coração, os viajantes da mochila sempre pronta e de telefone em riste para o próximo contacto e sempre estamos juntos: em Londres fui despertada pelo meu pai que estava na Guarda, de casa já cantei um embalo para a minha menina que estava no Gêres, chegam-me diagnósticos de Lisboa e até já os parabéns cantámos ao avô Diogo do Alentejo para as Beiras.
Todos conhecemos os rebuçados da "La Violeta" da Plaza de Canalejas, de Madrid ou o "pan d'olive" da Avenue De Champs Eliseés, au Paris, mas também o sabor das uvas morangueiras e dos figos mais suculentos, assim como o perfume doce que inunda a pele de cada um de nós. Especialmente este.
Muitas vezes longe, nunca com distância é a lição que quisemos recolher desta jornada: sabemos que partir se impõe tantas vezes, que viver ao longe é, também, sinónimo de muita alegria e que nunca ficamos sozinhos, ainda mesmo quando nenhum de nós está por perto.
Há muito, muito tempo alguém me ensinou que quando o Amor com açúcar, a saudade, nos assola só há um modo de o saciar: olhar a estrela mais brilhante e saber que ela brilha mais pelo Amor de todos os que nos amam.
Pendurada, agora, no parapeito da janela que se assoma vejo uma estrela incandescente: é o teu Amor Maria, e o seu, meu pai, mais o seu, mãe.

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