A beleza inibria os Homens!
Eu sou daquelas que marca na sua agenda um tempo para a beleza. Tão-só porque não vivo sem ela.
Vi, mirei, mergulhei e fui tocada pela beleza e estou, por isso, embriagada de tanta, tanta beleza.
Como sempre descobri, pela enésima vez, um outro pormenor, mais um traço, um novo brilho ou mesmo uma atmosfera que não tinha notado: afinal tinha outros olhos, respirava outro ar e a minha Alma ainda não tinha vivido o suficiente para os descobrir.
Traga o sol que me banhou naquela praça magnifica. A mim e aos meus amores.
O calor que me transportou à memória do futuro, o futuro da paz, do riso e das aventuras, das quais sou a timoneira mais louca possível.
Tenho na segunda camada da pele, porque me tatuam, os afagos e os beijos do meu Miguel, debaixo daquele sol que sempre me aquece e nunca, mas nunca me abrasa. E os abraços cumplices do meu menino, que tinha de esborratar-me com a sua alegria quando o coração estava prestes a explodir.
No coração está impresso o olhar de Maria, a Maria de El Grego na "Anunciação", o mesmo olhar que, desde há muitos, muitos anos, me faz estremecer e me humedece o olhar, sempre que a olho nos olhos. O olhar alvo, calmo e absolutamente disponível. O de maior doacção!
Faz-me tremer esta Maria pela sua paz em face da revolução que se lhe adivinhava; saem-me as lágrimas dos olhos perante a sua indiferença ao medo; fico extasiada pela sua dádiva plena.
Nunca vi, em qualquer outro produto criado pelo Homem, um sinal tão contudente, tal força de liberdade.
E recolho o saber, que há muito me ensinaram.
Tudo o que é verdadeiramente importante é nos dito em surdina.
Tudo o que queria dizer a mim mesma disse-o naquela praça, debaixo daquele sol pungente, em silêncio - porque a beleza me cortou a palavra.
Aquilo que de melhor os meus amores me ofereceram foi-o em silêncio: afagos, beijos e abraços; de amor, de carinho e de uma cumplicidade ímpar.
Maria, mais uma vez, deixou-me estremecida em silêncio: adivinhando, sabendo mesmo, as atribulações que se aproximavam, conhecendo o seu tempo, sabendo a comunidade em que vivia, nada temeu, para tudo se mostrou pronta e sempre, sempre, com uma serenidade única.
É, por isso, que, como Ela me ensinou mais uma vez, sempre que o vento sopra em meu redor, estou muito atenta ao que me diz: as suas trovas são mesmo o grande sopro da Vida.
Um verdadeiro escultor.

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