A diferença de cada Homem está contemplada em tudo o que vemos de seu: não há um Homem igual a outro.
Mesmo aqueles que se assemelham têm sempre a marca do que é distinto.
Parecidos, seremos muitos uns com os outros. Iguais, nenhuns.
Disso se encarregou a genética, mas não só. A cada um de nós preside uma singular forma de viver, de sentir e até de comunicar.
Ao repararmos numa qualquer realidade, qual seja uma flor silvestre, podem ter a certeza que, uns vaticinarão tratar-se de um prodigio da natureza, do que mais belo se pode encontrar, enquanto que para outros, pouco mais será do que uma erva daninha.
E todos eles estão certos.
Cada um deles é uma diferente verdade.
E é por isso que o Mundo é uma extensa, extensíssima manta de retalhos, uma grande e bela manta de retalhos.
A par de quem acredita que nada acontece por acaso está o que entende que a Vida é uma sinfonia a ser dirigida a duas mãos, as suas.
Temos quem domine o Mundo e seja poderoso, tendo mesmo o papel importante de distribuir os milhões e já ao lado está quem só lhe compete servir, e que serve com uma enorme alegria.
Há ainda o Homem que é tecido por uma série de convenções, das mais comezinhas às mais sofisticadas, e aquele outro que é, sempre, um desalinhado, o que inspira o improvável e expira a diferença.
Lado a lado temos a sofisticação do aprumo e a vertigem do que é sempre novo.
Essa é, decerto, a grande impressão digital de cada Homem - uma diversa luz no olhar que projecta no Mundo, em tudo o que vê, a Vida que vai dentro de si.
E são esses olhares tão desiguais que vão pintando o Mundo e a Vida, a Vida de todos nós, de forma tal que parecemos todos coloridos com as dezenas de cores daquelas caixas enormes de lápis feéricos que as crianças deliram receber.
Mas se a beleza é sempre ser diverso, unico, pois é o transforma o Mundo nesta singular obra de arte, algo acontece quando estes olhares se cruzam.
Um milagre acontece, diria mesmo: ambos sabem sorrir, rir até; conhecem os poemas mais anónimos, que lhes estão inscritos na alma e para eles as pedras preciosas são aquelas que o mar deposita naquela orla, naquele pedaço que é o ventre mais sagrado de cada um dos seus Mundos.
Sabem até desatrapalharem-se com a sofisticação de um e a vertigem do outro, o poder de um desembainha-se perante a humildade do outro e o maestro da Vida começa a escorregar da improvavel causa das coisas.
É que, afinal, eles descobrem que não podendo ser tão diferentes, não podiam ser mais iguais: são Homens, têm o pulsar da Vida no seu coração, vibra-lhes o mesmo som do infinito.
Razão porque acabam por perceber que aquela é apenas uma flor.
Mas é a flor.
Seus Olhos
Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
Almeida Garrett

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