Há dias em que a Vida se revela de forma absoluta.
Umas vezes são dias de realizações magníficas, que se perpetuam na memória. Ou, mesmo, nas memórias.
Já outras vezes são dias de descoberta.
De uma descoberta tal que, também por isso, para além de ficarem gravados em nós como tatuagem, nos tornam diferentes.
Há sempre um dia em que, apesar da nossa força, daquela faísca de universo que habita em nós, não queremos ser fortes. Ou não podemos.
É o dia!
É o dia em que os atavios caem, os passos são menos pungentes e a luz do olhar desvanece.
Sim, é certo, podíamos seguir, mais lentos, passo-a-passo, em "slow motion", e continuar nós próprios a jornada pelo Caminho.
Mas não o queremos: aceitamos que não somos o esteio e declaramos que estamos frágeis!
São dias que, mirando de perto, parecem doídos, até de algum susto.
Mas, ao longe, vendo a sua perspectiva, descobrimos a enorme riqueza que trazem a quem somos, preparando-nos para novos trilhos do Caminho.
Oferecem-nos uma desnudada humildade, pois só na fragilidade pura sabemos realmente como somos tão pequenos; dão-nos a apreciar a verdadeira medida do Tempo, pois que só quando ele é mais pesado sentimos, também, como podemos saboreá-lo devagar; mostra-nos como o Mundo gira, gira e torna a girar mesmo quando o nosso passo o não acompanha e, por isso a nossa medida de pequena, pequenissima peça de puzzle do Universo, razão por que descobrimos, ainda muito mais, como somos absolutamente livres.
Mas a grande, a enormíssima oferenda, que a fragilidade nos traz é o Amor.
O Amor de quem nos ama.
Nesses dias esse Amor tem um brilho ofuscante e como manto cobre-nos; protege-nos como escudo e caminha ao nosso lado, levando-nos "sempre ao colo".
É um rasto de beleza que o universo liberta e com que nos compraz e a que nós aprendemos a chamar cumplicidade.
Ser cumplice é lamber as lágrimas do outro, sempre, sempre a sorrir, fazendo-lhe crer que "tudo é foi, nada acontece" porque "tu és uma força da natureza!".
"É ser alma, e sangue e força em mim".
"Tudo é foi, nada acontece". Eugénio de Andrade
"É ser alma, e sangue e força em mim". Florbela Espanca

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