domingo, 19 de setembro de 2010

Ser Ponte

Nestes tempos modernos, moderníssimos, da alta tecnologia, das máquinas, dos fios e até das ondas sem fio há, como nunca, um ser só.
Não há nada mais duro do que a suavidade da indiferença, dizia há muito Juan Montalvo, sem que pudesse adivinhar que haveria, um dia, Homens sozinhos quando o Mundo é tão vasto.
Há quem clame por ter um amigo, um amor, até mesmo só alguém a quem dizer "bom dia, eu sou ...": há desespero na solidão de muitos Homens.
E não são apenas os "velhos", como é habito por agora chamar àqueles que têm a sabedoria da vida vivida; os que se deixaram de ouvir, tão-só porque é politicamente correcto entender que é na ultima novidade que está o "glamour", a "sagesse".
Mesmo daqueles que são, ainda, aprendizes muitos são, também, os que vão lançando gritos mudos, sufocantes; também muitos deles vivem numa triste solidão acompanhada.
Num tempo em que a palavra de ordem é a reciclagem, o Homem esqueceu-se de se reciclar!
É certo que quase ninguém tem já o privilégio de viver numa familia alargada, todos sabemos que as distâncias são cada vez maiores, cada vez é mais raro uma criança viver na mesma casa com os seus pais juntos, o Tempo parece ter encolhido! E mais, e mais e mais...
E a inteligencia do Homem?
E a sua vontade?
E o seu coração?
Onde estão todos eles?
Porque não soube o Homem reinventar-se nos afectos?
Porque não tem o Homem a coragem de ser ponte? Porque não tem coragem de amar, desprender-se pelo Mundo, pelos Homens, pela Vida, sendo de doacção em doacção?
É que todos, mas todos mesmo, temos o dever de ser elo: de olhar quem está junto de nós, aceitar a sua humanidade nem que não a entenda e acolhê-lo, ligando-o a si e a quem está junto de si.
Olhar, ouvir, cheirar, tocar, partilhar as palavras e os gestos são actos tão brutalmente necessários ao Homem como respirar; pois só dessa forma se mantém vivo.
Ser ponte, ser amurada, ser cais é ter a alegria de ser sempre ponto de passagem e, quase, quase sempre, ponto de paragem.
E, mirando-nos de longe, somos nós. Mas já não o somos só.
Somos nós e todos os outros: a manta de retalhos de pedras preciosas que a Vida, afinal, só a nós quis oferecer.

 

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