Não nascemos quem hoje somos. Nem amanhã seremos quem agora, neste preciso momento, somos.
Somos em permanente devir: desde que como "grão de milho" no ventre materno a pequena criança, caminhamos em direcção ao infinito. Permanentemente.
Mas nunca somos iguais.
Como que por magia quem fomos foi ficando, aos poucos e poucos, preso nas veredas e nos poros de quem amámos, e ao caminharmos neste constante crescimento renascemos sempre, renovando-nos, revivendo, ressurgindo. Sendo novos!
De quem eu fui há 20 anos ficou uma memória e uns traços, claro; mas eu sou outra hoje - saboreio de outra forma as laranjas que mordisco, pois hoje são muitissimo mais saborosas; para nem falar nas palavras que releio do meu livro mais remoto, que hoje fazem um novo sentido.
Cresci?
Não sei!
Sei que me encontro com o antigo e eu sou nova; a cada instante sou nova.
Entendo agora que sou retrato das luzes que me foram banhando. As alvas e as mais escuras; as belas e as opacas; as que ferem os olhos e as que me fizeram brilhar. Mas todas elas me fizeram olhar para todos os angulos de mim, mesmo aqueles que eu nem sequer adivinhava.
Por isso sou muitissimo mais rica; por isso sorrio a todos que me olharam com a sua luz e a verteram em mim: sem toda esta barragem de luzes eu nunca seria eu!
Claro que a luz que hoje me banha é a mais bela, nenhuma outra se lhe assemelha, sequer; razão porque a espero no futuro.
Mas todos os olhares cruzados, todas a luz oferecida, tudo o que nos teceu e nos faz quem somos tem que forçosamente, ter o tributo da nossa memória.
Honrar o passado é fazer uma vénia a si mesmo e dizer-se que tudo valeu, mesmo quando as horas foram um permanente desafio e a exaustão nos ia roubando a alma, porque afinal o Amor, o verdadeiro, é sempre mais forte, a liberdade é o único ar que se respira e a dignidade um modo de vida.
Honrar o passado é, pois, forma de dizer "Obrigada". A dizer, apenas, a quem nos deu luz.

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