terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Sorriso


O Homem Novo ou o Novo Homem, conforme lhes parecer melhor, é, por via de regra, um Homem virado ao sizudo.
Das regras constantes dos códigos de conduta parece que foi feito constar que, para melhor compustura, se exige a ausência de todo e qualquer sinal da sua humanidade: deve ser-se circunspecto e a mostrar alguma emoção deverá ser de sucesso, fartura e, até, de algum excesso (seja do que for!!!).
Há mesmo gente para quem a perda de alguma coloquialidade é, até, ponto de honra, como que se a frieza e até um certo desafio insolente - não o boémio e desconcertante que sempre nos faz acrescentar algo mais ao saber - como que a querer mostrar aos outros que nada valem se medidos a seu lado.
Chega-se, até, a baixar dos parâmetros exigidos pela boa educação: não se olha quem se cumprimenta, não se chega atempadamente e a horas, não há o cuidado em ser amável para quem está em relação connosco. Nem que isso signifique não dizer "bom dia" a quem divide as mesmas tarefas que nós ou até não olhar nos olhos ao filho a quem se ralha.
O Homem Novo, aquele que tem quase todos os objectos que o fascinam, desde a panóplia infindável dos "gadgets" electrónicos até ao carro da marca mais vista e reconhecida, de preferência com a cor dominante - para que todos o possam ver bem - passando pelos objectos pessoais que possam carrear a atenção da mole de pessoas que o cercam, é, por via de regra, um Homem desprendido da humanidade do outro.
Esqueceu-se de que a sua beleza não se compraz nos objectos que traz consigo, que as virtudes não se medem pelos dígitos da sua conta bancária nem mesmo que a austeridade, a distância que coloca no olhar que desprende para quem o cerca não o tornam mais importante.
Parece mesmo que o Homem se esqueceu do que é ser Homem; o que quer mesmo é ser notado pelos outros Homens: para trás parece ter ficado a "era do reconhecimento" em que saudavelmente todos necessitávamos de que quem estivesse a nosso lado mostrasse que nos olhava e que gostava do que via, para um momento em que importante, importante mesmo, é ser uma montra do Mundo... mirado por todos, ainda que ninguém nos veja!
Cultivar este sucesso anónimo faz mal ao Homem, tão-só por ser contrário à sua natureza, à sua real necessidade.
O sorriso: tanto dá-lo como recebê-lo, é das maiores necessidades do Homem - o Homem precisa que o afago dos outros Homens lhe alimente a Alma, tal como precisa de ar para não abafar.
O sorriso é uma arma de paz, uma dádiva de encontro, uma flor que sempre podemos trazer a enfeitar o rosto.
Faz-nos, também, sorrir: é contagioso.
E esqueçam os códigos de conduta que vos ensinaram, criem outros: é obrigatorio sorrir, façam deles constar.
E se dúvidas ainda vos restarem, inquiram-se - quem vou querer encontrar pela manhã: um homem que mal se olhou ao espelho porque já se esqueceu de si e dos outros, pois assumiu como certo que uma cara fechada o torna respeitável ou antes uma mulher linda, com um vestido que a mostra como tal, com um sorriso afável no rosto porque sabe que a candura salva o Mundo?








                                                       Sorriso Audivel das Folhas


                                                     Sorriso audível das folhas
                                                    Não és mais que a brisa ali
                                                    Se eu te olho e tu me olhas,
                                                   Quem primeiro é que sorri?
                                                       O primeiro a sorrir ri.

                                                        Ri e olha de repente
                                                      Para fins de não olhar
                                                   Para onde nas folhas sente
                                                    O som do vento a passar
                                                   Tudo é vento e disfarçar.

                                                 Mas o olhar, de estar olhando
                                                     Onde não olha, voltou
                                                  E estamos os dois falando
                                                   O que se não conversou
                                                  Isto acaba ou começou?


                                                                                             Fernando Pessoa

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