A aparência, o retrato com que nos emolduramos, por mais belo que ele seja, não é "vida em movimento"!
Polaroid, tão-só, onde o real pulsar nunca se sente; é escasso.
Naquela mulher como naquele homem há aspirações e inspirações, há votos e desejos, há misérias e vitórias.
Eles que são pegada que ficou de um rastilho, mas também, catalisador de gente.
Dia-a-dia, passo a passo, vivendo, recolhem os sonhos como verdadeiros balões, daqueles coloridos e prenhes, como crianças alimentando a crença que com eles, atado um em cada mão, voarão pelo firmamento do Amor, da alegria e, quem sabe mesmo, da imortalidade.
Sim, porque o Amor torna-nos imortais!
Mas se o Homem está cunhado pela marca da memória, também, o distingue a precaridade: "tudo é foi, nada acontece", diria o poeta.
Assim, muitas vezes desalinhado com o prumo que se deu, ele conhece o desatino: trémulo perante o dealbar, apavorado em face do crepúsculo. E segue como os meninos que já fomos, sentado em euforia num daqueles carrinhos com rodas de rolamento, pela rua mais íngreme, destinado a viver a maior das suas glórias ou a sentir as mãos a queimarem no asfalto.
Perante essa dor, sentindo-a, resta-lhe mirar-se no espelho da sua Luz e encontrar, no fundo de si, a teia, a finíssima teia, que o tecerá para a próxima jornada; aquela que é, sem engano, a melhor de todas, excepção feita as mil outras que se lhe seguirão.
E encontrada ela, enovelando-se nesse manto, ei-lo desperto e, olhando aquele firmamento que lhe surge como guia, suspira "é este o meu Caminho!"
De Noite
Quando me deito ao pé da minha dôr,
Minha Noiva-phantasma; e em derredor
Do meu leito, a penumbra se condensa,
E já não vejo mais que a noite imensa,
Ante os meus olhos intimos, acêsos,
Extaticos, surprêsos,
Aparece-me o Reino Espiritual...
E ali, despido o habito carnal,
Tu brincas e passeias; não comigo,
Mas com a minha dôr... o amôr antigo.
A minha dôr está comtigo ali,
Como, outrora, eu estava ao pé de ti...
Se fôsse a minha dôr, com que alegria,
De novo, a tua face beijaria!
Mas eu não sou a dôr, a dôr etérea...
Sou a Carne que soffre; esta miseria
Que no silencio clama!
A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama... Teixeira de Pascoaes
Minha Noiva-phantasma; e em derredor
Do meu leito, a penumbra se condensa,
E já não vejo mais que a noite imensa,
Ante os meus olhos intimos, acêsos,
Extaticos, surprêsos,
Aparece-me o Reino Espiritual...
E ali, despido o habito carnal,
Tu brincas e passeias; não comigo,
Mas com a minha dôr... o amôr antigo.
A minha dôr está comtigo ali,
Como, outrora, eu estava ao pé de ti...
Se fôsse a minha dôr, com que alegria,
De novo, a tua face beijaria!
Mas eu não sou a dôr, a dôr etérea...
Sou a Carne que soffre; esta miseria
Que no silencio clama!
A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama... Teixeira de Pascoaes























