quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A ilusão do Poder


Desde tempos imemoriais foi o Homem ensinado que a sua força era tanto maior quanto excelso fosse o poder que detivesse.
Assim nasceu o principio da guerra, a razão do desejo do domínio.
Muitas armas soaram, muitos homens tombaram, tantas mulheres foram flageladas e uma mole de crianças aprenderam a viver sem o calor do afecto, degustando, antes, o travo amargo da ausência, da doença e mesmo da morte.
Para o justificar, o Homem, que se sabe inteligente mas se esquece humano, criou ideologias, defendeu teses, criou teoremas. Defendeu, mesmo, o indefensável !
E dos tempos, do que apelidámos arcaico, em que o Homem coberto pelas peles dos animais que matava para, além de obter alimento, também o abrigo, se fazia munir de um pau – a famosa moca, eis-nos chegados ao presente: e nada mudou!
Tudo igual, apenas mais sofisticado e, por isso, mais violento.
Convencido pela ilusão da importância do poder, qual bebedeira, o Homem contamina almas, flagela corpos, destrói pessoas, desta forma minando gerações: um verdadeiro genocídio emocional.
Coagem-se trabalhadores para produzirem aquilo que não sabem e nem podem, arrasam-se almas grandes apenas porque o são, vilipendiam-se crianças tornando-as em pequenas adultas mascote para exibição publica, subjugam-se mulheres apenas porque os são – mulheres, violentam-se os idosos, os deficientes, aqueles outros com alguma carência porque mais precisam do outro: todos eles são os troféus de uma guerra surda do Homem que se quer mostrar o melhor, o maior. Em suma, o poderoso.
Mas eis que a novidade surge – há sempre um dia em que a harmonia se sobrepõe ao caos.
É que a dignidade do Homem é de tal forma sublime que, de repente, e quase sempre de rompante - como a onda de um tsunami - se impõe e então, a violência dá lugar ao caminho da descoberta de si, da sua liberdade e da sua força e valor únicos.
E faz-se luz: o poderoso, aquele Homem que dizia tudo saber e a todos dominava, subjugando-os, e levando-os a humilharem-se, é afinal o que tem medo de si, padece da insegurança de estar vivo e sabe que nada tem porque vive no vazio.
Era, afinal, um gigante com pés de barro, porque um morto-vivo: não tem Alma.  




Meditação Sobre Os Poderes

Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta.


José Jorge Letria

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