sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O pormenor do simples

Do que gosto mesmo são das pessoas que me inspiram a ser melhor, a rir mais e a dar o mais que posso ao Mundo, ao Homem, a amar a Vida e a Deus. Tanto quanto a mim mesma.
São, não gente, mas pessoas felizes.
Pessoas que aprenderam que o melhor sol é aquele que nos traz o sorriso dos que amamos, porque nos aquece não a pele mas a alma; são aqueles que festejam a alegria só porque sim, não porque há calendário para festas; os que programam a Vida sabendo que o grande evento é o imprevisto, aquele que nos traz a novidade de ser feliz, sem tempo, nem medida.
Elas, aquelas pessoas que já um dia tocaram no ventre do Universo e são, por isso mesmo, verdadeiros prodígios, murmuram em cada passo que projectam no Universo, seja ele lento ou estugado, uma verdade que é irrefutável: a sua humanidade tocante.
Olhá-las nos olhos leva-nos a descobrirmo-nos como num enorme, num gigantesco espelho, onde, para além da nossa imagem, a do nosso corpo, vemos, ainda, a nossa luz e, ainda mais, a alma que trazemos: aquele último reduto onde nos acantonamos até de nós mesmos.
Descubro-me, sempre, inteira neste olhar: catita, com os olhos de descobrir Mundo, a viajar ainda mais pelos sonhos, sempre com a certeza de que esse é um barro de construir vidas.
E se viva sempre estive, a Vida hoje assalta-me qual pirata aportando em navio: assolando-me!
Os narcisos que tanto estimo hoje não são amarelos: são bebedeiras de sol; as palavras que leio nos livros, que quase acaricio, já não são palavras, são conversas truculentas que os gnomos, primos das fadas, mantêm comigo; as telas que me pintam - as memórias que me tecem - são agora translúcidas, iluminam-me, trazem-me luz ao coração, que agora irradia.
Tudo isto eles me vão doando, momento a momento, no pormenor do simples.
Descobrem-me.
E apupando dizem-me "és linda", minha "Zé Minhocas", fada Sininho, lindabelamorena, fada Musa.
Sabem que nada mais sou que eu. A mais simples de todos.



Simplicidade


Queria, queria
Ter a singeleza
Das vidas sem alma
E a lúcida calma
Da matéria presa.

Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe;

Ser igual em som,
Ser igual em graça
Ao pássaro leve,
Que esvoaça...

Tudo isso eu queria!
(Ser fraco é ser forte).
Queria viver
E depois morrer
Sem nunca aprender
A gostar da morte.   


Pedro Homem de Mello

   

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