Mais do que nunca dominam as tabelas, as quantificações, as estatísticas, como que querendo o Homem, aflito, reduzir a realidade, enorme, cada vez mais ampla, à efemera realidade dos números.
Simplificação, dirão uns.
Confusão, digo eu.
O Homem está cada vem mais em engano acerca do que é a inteligência: aquele oasis que procura desesperadamente para a sua sede, naquele que pensa ser o deserto da sua Vida.
Mas nem a Vida é um deserto, como nem a inteligência é um oasis.
A inteligência é tão-só a capacidade de tornarmos nosso o conhecimento do real, trazer para nós, para dentro da "nossa biblioteca uns não sei quantos livros".
Mas esta é um capacidade que, solitária, nada empresta ao Homem: tem o mesmo exacto valor que os volumes da extensíssima enciclopédia, umas dezenas, que empoeirados aguardam uma visita na prateleira mais alta da estante da sala de leitura - praticamente nenhum, digo eu.
Tal como os livros, que são sempre mais belos quanto mais coçados se encontram, o que nos oferecemos por virtude da inteligência só nos vale quando o vivemos, quando o relemos, quando o sentimos do nosso modo e à nossa medida.
Nada sabemos de verdade se não o dimensionarmos a nós. Talqualmente fazemos ao eterno livro de cabeceira, o que nos acompanha desde sempre.
É nesse embrulho que tudo muda: a realidade já não é só matéria e o Homem já não é o mesmo Homem.
Esta é a razão porque um Homem verdadeiramente inteligente é, sem excepção, um Homem sempre feliz.
Nunca se alheia do Mundo, pois sabe-se seu também; não tem preconceitos pois já sabe que é na diferença que a Vida está sempre mais rica e sabe olhar cada um dos outros, cada um dos outros Homens, como um igual.
Mas, sobretudo, sabe venerar o pedaço de divindade que há em cada Homem, porque já a conhece.
Não porque essa seja uma das matérias que aprendeu, foi, sim, o que já descobriu olhando-se.
Pois este Homem, que é verdadeiramente sábio, sabe que sabe, não somente porque aprendeu, mas sim porque aprendeu com um sorriso.
E, é por isso que, é de olhos fechados que ele sabe da Vida: é assim que tudo vê porque tudo o que precisa saber está dentro de si.
O Caminho da Salvação
A cegueira e a obstinação dos homens lembra-me às vezes a cegueira e a obstinação das varejeiras enfrenizadas contra as vidraças. Bastava um momento de serenidade, dez-réis de bom senso, e em qualquer fresta estava a liberdade. Mas o demónio da mosca, quanto mais a impossibilidade se lhe põe diante, mais teima. O resultado é cair morta no peitoril.
Não se pode fazer ideia da maravilha de criança que era a filha de um poeta de meia tigela que hoje me lia versos impossíveis, a empurrá-la enfastiado com a mão esquerda, quando ela graciosamente o interrompia. A canção enluarada, a quadra perfeita, o soneto verdadeiro que justificavam aquele homem estavam ali, a brilhar nos olhos da pequenita; e o desgraçado às turras à janela, a zumbir e a magoar-se, sem ver que tinha diante de si o verdadeiro caminho da salvação!
Miguel Torga

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