sábado, 9 de outubro de 2010

É mesmo um só até já

Não gosto, nem nunca gostarei, de despedidas.
Mas, então, como explicar que em todos os cais de embarque - nem mesmo que seja a mais rudimentar das estações de caminho de ferro perdida entre nenhures - seja assaltada por uma emoção incontida?
Será pela amálgama indefinida de pessoas que transmutadas pela velocidade e pelo desconhecido me dão uma consciência de plenitude, ou será então aquele passo apressado de rostos tão distintos que buscam trajectos opostos que me mostram que a ambiguidade é mesmo a unica das metas que quero seguir?
Seja por uma viagem de 10.000 quilómetros como por outra de somente 10 o sono sempre debanda, a mala enche-se e a ânsia da descoberta nunca, mas nunca, parte: ali está ela, lado a lado, é mesmo a melhor companheira de viagem.
Guardo de todas, e de cada um das viagens, os olhos cheios: plenos de Mundo, arrasados de Vida mas, ainda mais, os verdadeiros "gifts": a alegria de escrutinar bem dentro de mim a mudança!
E viajo muito - vou dentro do meu coração, à Alma que sempre me percorre e embarco em todos os que amo: encontro os meus pedaços, vejo o efémero, mas ainda tudo aquilo que é o cimento que me liga para sempre a mim mesma e a cada um deles, os meus amores: uma partitura que regista a banda sonora de quem somos, a melodia eterna das risadas que partilhamos.
Sempre que aporto, vinda de mais uma jornada, aprendo que o Mundo é cada vez maior, parece mesmo de elástico; mas que, mesmo maior, só o Mundo que habita em mim.
Aquele que contém todas as emoções que já vivi: as lágrimas em torrente de sentir que vou, um dia, ver as minhas gaivotas a voar bem no alto, as sonoras gargalhadas porque há sempre um louco, um louco destemido, um ousado louco destemido que se pensa mais ousado, louco e destemido do que eu, o sorriso mais brando e mais tranquilo, sempre o mais bonito, quando ao fim do dia, abro a porta de mim a quem mais quero, em silêncio.
Mas nunca digo adeus.
Não porque ainda tenha essa superstição: não! Já me despedi, de vez, do medo do adeus.
É que a Vida me ensinou e eu já aprendi que os amores, os pedacinhos de nós que andam espalhados pelo Mundo, errantes, nunca partem.
Nem, mesmo, que as malas tenham sido feitas, os polaroids retirados, os telefones tenham emudecido, nada disso é sinal, o menor indício, de que os amores partiram.
Os amores decalcam-se-nos na Alma, na pele e no cheiro. São cada um deles a parte de um enorme vitral que somos nós. Razão por que, assim, mesmo ao longe, sempre nos iluminam.
Tenho muitos amores. E alguns pareceram ter partido mas não: uns são as estrelas que brilham mais no firmamento em cada noite e que me sorriem e me murmuram, muito baixinho, sempre que é preciso contar-me mais um novo segredo, outros desbravam caminho, o seu Caminho e o meu Caminho também e em silêncio me vão falando, mostrando-me que não há longe, nem distância.
Assim porque lhes diria adeus?
A nenhum deles direi, nunca, adeus porque me têm consigo: é mesmo um só até já.


Esta Noite Morrerás


Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.


Ana Hatherly

1 comentário:

  1. eu também "não gosto nem nunca gostarei de despedidas"

    mais um excelente post. Parabéns

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