quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Vampiros de Almas

Todos os seres são seres de Luz!
Cada um de nós, cada pessoa, tem um pedaço do Universo contido no seu coração: a marca da sua comunhão com o Todo e com a intemporalidade.
Por infelicidade há quem ainda não o saiba.
São aqueles que, por isso, se tornam vampiros de almas: os que sugam a Luz das almas vizinhas.
O medo de não saberem quem são, a insegurança que lhes provém de não serem os Deuses que sonharam ser, o desejo de ter o Mundo a seus pés e o domínio do que é a Vida - não a sua, mas sobretudo de quem a seu lado caminha, semeia-lhes o desespero.
São Homens em desatino cujo alívio passa por infligir dor: ou são as bofetadas certeiras que desfiguram, ou as perseguições cerradas que aprisionam, as humilhações sibilinas que reduzem ou mesmo os actos que travestidos de amor nada mais são do que mero exercício da mais vigorosa posse e, por isso, do maior dos ódios.
Em qualquer destes gestos o desvario é tal que chegam a dizê-los prova de um amor ímpar, aquele que apenas se diz por gestos.
E gestos tão assombrosos quanto de desespero: pois para eles, aqueles Homens, o Amor apenas o é se for assombroso e de desespero.
Um Amor possuído: aquele em que quem é "amado" é já nosso, não por fazer parte de nós e dos nossos sonhos, mas sim porque, qual objecto, o detemos.
São Homens fechados no seu cárcere - ou aquele em que nasceram ou no que construíram para si - onde não entra réstea de Luz, de liberdade e muito menos de dignidade.
E transportam para os seus reféns essa escuridão, sugando-lhes os sonhos e marcando, indelevelmente, as suas almas até à eternidade.
Depois do jorro da violência nunca mais nada é igual: as cicatrizes são marcas que o Tempo nunca apaga, há uma parte de nós que morreu porque foi morta e a nossa memória acutila-se.
Mas, como sempre, o Homem é bom: sabe salvar-se!
Há, sempre um dia, em que o rasgo de liberdade e o da dignidade o assombra e, de tão, pujante, esse rasgo ilumina-o, ditando-lhe que não mais viverá sem liberdade, sem dignidade e sem sonhos.
Então, esse Homem, deixa ir a sua parte que morreu, mira de soslaio as cicatrizes que lhe enfeitam a sua Alma e sabe que os grilhões que havia colocado em si mesmo se soltaram para sempre.
E descobre-se um Homem nascido de novo, feito por si.       




Violada


Possuíram-te nas ervas,
Deitada ao comprido
Ou lívida a pé:
Do estupro conservas
O sangue e o gemido
Na morte da fé.

Chegaste a cavalo
Trémula de espanto:
Esperavas levá-lo
Com modos de amor:
O fátum, num canto,
Violento ceifou-te
O púbis em flor:
Dou-te
O acalanto
Mas não há palavras
Para tal horror!

Vem ainda em cós, mulher,
Limpa as tuas lágrimas no meu lenço:
Nem pela dor sequer
Eu te pertenço.

O cavalo fugiu,
Deixou-te em fogo a fralda:
Que malfeliz Roldão
Para tal Alda!
Ao frio, ao frio,
Tinta de ti é a água e sangue o chão.

Ponta Delgada a arder
Do próprio pejo, quis
Em verde converter
O incêndio do teu púbis.

Mulher, não me dês guerra,
Oh trágica enganada:
Tu és a minha terra
Na carne devastada
Como a Ilha queimada.

Vitorino Nemésio

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