Ensinou o poeta, como Mestre, que ninguém é feliz sozinho.
E é mesmo como ele diz.
Desde o ventre materno aos demais ventres, ninhos e aconchegos que a Vida nos vai oferecendo, ninguém, nunca, está só.
Povoam-nos, para além das memórias, também todos os pedaços de quantos nos oferecem os seus sorrisos, as suas palavras quanto as suas dores e as suas raivas; mágoas até.
Vamo-nos construindo desta matéria soluvel, que são os amores e os desamores, sabendo que o perpétuo está sempre lá, ainda que meio ensombrado pela rasura do consumo dos dias e o frémito das noites e, também, quantas vezes, pelas horas mortas da dor.
E se somos sempre em mudança - e assim é Graças a Deus - há um cristal que está sempre incólume: tudo o que guardamos na Alma! A verdadeira arca do tesouro.
Remota e longa caminheira de Tempos e Tempos, a Alma carrega tudo o que amealhámos, o sagrado.
É a voz de um pai que, ao descer o último degrau junto da porta de entrada, sempre nos diz quanto gosta de nós, é o cheiro da terra molhada depois das primeiras chuvadas, no Outono, que nos fazem sentir o fim e o recomeço, é o aconchego da lareira abrasadora naquela cozinha tão grande como um mundo àparte onde começavam e acabavam todas as conversas da infancia mas, também, onde os meninos mais pequenos vieram a dar os primeiros passos.
É, antes de mais, a certeza presente de que todas as dores quanto as grandes alegrias têm sempre morada não só em nós mas, muito, muito mais, em todos aqueles que já mergulharam no nosso infinito e que connosco partilham a mesma pele.
É em todas as horas, e em cada momento, encontrarmos e, mais que sabermos, sentirmos que eu sou tu e que tu sou eu e, que é por isso que, quando digo "estou aqui!", eu estou mesmo aqui e que quando tu exclamas "preciso de ti", eu sei quanto tenho de aqui estar para te acolher.
Certo é, pois, que neste encontro de almas há um longo caminho, um caminho pródigo de enorme beleza.
Uma beleza onde cada qual mira o Mundo com olhos seus, fitando cada cor, o seu céu e a luz com a sua mirada, desbrabando a terra a seu modo.
Mas caminhos de lado a lado, onde de soslaio, e com um sorriso no rosto, sempre sabemos, que o chão que pisamos é o mesmo, o ar é de ambos e os sonhos sempre nossos.
E como que abençoados, retidos nesta confiança, que é a certeza de uma morada fora de nós, seguimos...

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