sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Da Intimidade

Cada Homem é diferente do outro pelo seu pensamento e pela sua intimidade, afinal os dois últimos redutos onde ele se acha singular e absolutamente só.
Mas se o pensamento é um invólucro fechado e selado, onde só a nossa consciência pode penetrar; ao invés, a intimidade é um jardim interior, com claustros. Belissimo. Aberto a quem o franqueamos.
E nada, nada mesmo, mais liga quem bem se quer do que a intimidade: ser visita, hóspede ou residente daquele recanto que existe em cada um de nós significa ter um código único para a partilha do nosso uno.
Sempre que se divide um toque de pele, se oferece uma troca de olhares ou um cheiro se mistura nada mais é igual para quem se partilha: não, não fica sem nada; ganha sempre mais.
Nunca mais se é igual e nunca mais se vive só.
Quem oferece o seu toque ganha, como não antes, um aveludado único, pois recebeu a maciez de uma outra pele.
A luz de quem viu outro olhar, que com o seu se misturou, fica muitissimo mais brilhante.
O cheiro que era o seu, não mais é igual: a sua fragrância é outra, a fragrância do outro é também, já, diferente.
Os amantes são os mais afortunados dos seres porque sabem, como ninguém, dividir tudo o que os torna diferentes, singulares e, depois dessa mescla, descobrem um outro lugar que só para eles existe: aquele onde ambos se encontram, longe do Mundo, do Homem, onde a Vida pára e, acho eu, até Deus tem pudor de espreitar, tal é a beleza pura, qual encantamento de fadas, que ali se vive.
Afortunada, eu, que venho desde há muito nesta jornada do Caminho transformando a minha intimidade num recanto único, pleno de beleza e silêncio, fui contemplada por uma enorme, enormíssima oferenda: um residente, um magnífico residente que, vivendo já neste jardim, com ele tudo divido e de quem tudo recebo, por ter morada em seu reduto.
E se sabia, hoje sinto: um amante é um ser único porque tudo em si é uma oferenda: olhares, beijos, chocolates e flores são momentos eternos porque nos fazem felizes para sempre!




Ternura


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira


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