terça-feira, 12 de outubro de 2010

As palavras silenciosas

Sou das que diviso que a cada Homem se impõe que viva por si mesmo.
Mas é, também certo, que vivemos em permanente estado de vinculação: por muito que um Homem esteja só sempre se encontra enredado numa múltipla e bela teia de cumplicidades, ligações e afectos que são, afinal, a paisagem colorida que ladeia as margens do seu Caminho.
E nessa meada, nesse entrelaçamento, tanto nos vamos enovelando ao descobrir de nós como de quem se mistura connosco!
Nunca nos conhecemos bem antes de termos a capacidade de nos despirmos de tudo o que não somos perante quem connosco se vincula e, mesmo, só passamos a ter a noção de quem podemos ser quando temos a capacidade de nos misturararmos com quem nos partilhamos.
E, descontados os sábios - os que têm a ventura de nascer com uma alma velha - a outra parte dos Homens trouxe muito pouco de seu. Razão porque tudo, quase tudo, lhe é doado.
A doacção de emoções é, certamente, a grande oferta.
A oferta!
É um espaço permanente de entrega: não há momento em que um Homem não transforme a Vida do outro pelo que lhe oferece.
São as palavras - as pérolas, as belas pérolas tingidas de Vida, que ressuscitam almas, que desbravam Caminhos, que ensinam magia e suscitam sonhos - que nos oferecem que sempre, quase sempre, nos fazem festejar o canto de nós que estava, há tanto tempo, escondido na bainha do nosso coração: há, mesmo palavras, que nos relembram o tinir do seu compasso descompassado.
Mas nunca são as palavras que relembramos porque elas são, sempre, invariavelmente, escassas!
É o murmurio, aquele refulgar quase silencioso que nos faz registar a voz única de quem as disse.
É o sorriso que as enfeita, que as vivifica, que as torna prenhes de significado e, assim, com as suas molas as prende à Vida.
É a luz do olhar de quem as entrega, aquela bela luz do olhar, que as crava na nossa Alma e nos ensina para sempre. 
Mas, sobretudo, são as palavras silenciosas - as que nunca são ditas, mas que premonimos - que nos enchem o coração e nos falando, como anjo num sonho, nos relembram aquilo que sempre soubemos: só aprendemos bem aquilo que sentimos, muito melhor do que aquilo que sabemos.  


Há Palavras Que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperançar louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

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