Nenhum Caminho segue, sempre, uma forma plana: as convulsões são próprias da natureza e, como tal, do Homem.
Nenhum Homem que viveu - e viver não é, definitivamente, respirar - deixou um rasto linear de si, da sua história e de estórias: tudo é, ao invés, um emaranhado de Vida difusa, postada em acontecimentos díspares e aparentemente desconformes e o susto, às vezes, toma o lugar da expectativa pelo devir.
Momentos há em que os caminhos se parecem destroçar sem mais e, com eles, vidas imersas no caos de uma vertigem de dor: há Homens que chegam a ter inscrito no olhar a desilusão da falta da alegria; há mesmo circunstâncias em que a infelicidade lhes tolhe o sangue!
Mas viver é, isso sim, um tumulto, um ofegar constante que vem, não do corpo, mas da Alma: uma Alma que respira uma constante mudança, uma aprazada e volátil mudança.
Dos destroços da Vida e de tudo o que a maré do Mundo traz ao cais de cada Homem só o Amor tem o dom de reconstrui-lo: o Amor, a grande revolução silenciosa que tudo transforma.
Depois de cada tsunami, dos quase tantos que cada Homem tem a virtude de poder sentir, só o Amor pode pejar nova vereda, lançar um novo atavio, semear um novo sorriso: mesmo no caos, com Amor, se constrói um ninho.
O Amor é, por isso, uma forma de Vida.
O Caminho da Vida e a Vida do Caminho são sempre fruto um do outro, isto quando o Homem tem a coragem de olhá-los desgarradamente, ainda que a si mesmo se mire em soslaio, com a única condição de ter um coração pleno: Amar.
Serenidade da Alma
Não examinar o que se passa na alma dos outros dificilmente fará o infortúnio de alguém; mas os que não seguem com atenção os movimentos das suas próprias almas são fatalmente desditosos.
(...) Ser semelhante ao promontório contra o qual vêm quebrar as vagas e que permanece firme enquanto, à sua volta, espumeja o furor das ondas.
- Que desgraça ter-me acontecido isto!
Não, não é assim que se deve falar, mas desta maneira:
- Que felicidade, apesar do que me aconteceu, eu não me mortificar, não me deixar abater pelo presente nem me assustar pelo futuro!
Na verdade, coisa idêntica poderia suceder a toda a gente, mas bem poucos a suportariam sem se mortificarem. Por que razão considerar este acontecimento infortunado e aquele outro feliz?
Em resumo, chamas de infortúnio para o ser humano aquilo que não é um obstáculo à sua natureza? E consideras um obstáculo à natureza do ser humano aquilo que não vai contra a vontade da sua natureza? Que queres, então? Conheces bem essa vontade; aquilo que te sucede impede-te, por acaso, de ser justo, magnânimo, sóbrio, reflectido, prudente, sincero, modesto, livre, e de possuir as outras virtudes cuja posse assegura à natureza do ser humano a felicidade que lhe é própria? Não te esqueças, doravante, contra tudo aquilo que te possa trazer aflição, de recorrer a este princípio: «Acontecer-me isso não é uma desgraça; suportá-lo corajosamente é uma felicidade.» (...) Ser semelhante ao promontório contra o qual vêm quebrar as vagas e que permanece firme enquanto, à sua volta, espumeja o furor das ondas.
- Que desgraça ter-me acontecido isto!
Não, não é assim que se deve falar, mas desta maneira:
- Que felicidade, apesar do que me aconteceu, eu não me mortificar, não me deixar abater pelo presente nem me assustar pelo futuro!
Na verdade, coisa idêntica poderia suceder a toda a gente, mas bem poucos a suportariam sem se mortificarem. Por que razão considerar este acontecimento infortunado e aquele outro feliz?
Marco Aurélio

Sem comentários:
Enviar um comentário