As marcas da emoção são, quase sempre, como que cunhadas a ferro quente na Alma e, por isso, são eternas.
Quase todos nos lembramos da alegria como recebemos, na infância, o presente mais desejado e do qual, quantas vezes, nunca mais nos separamos. O meu é o "quadro mágico" de lousa com as contas às cores com um pequenino banco, onde tantas letras escrevi, onde tantos numeros inscrevi, onde tantas casinhas desenhei que está já gasta aquela que sempre foi a mais querida das folhas. Ainda o conservo comigo.
E da expectativa nervosa do primeiro dia de escola? Ninguém nunca mais deixa de recordar: mochila nova, cadernos, canetas e lápis tudo a estrear. Sem esquecer as batas alvas ou aos quadradinhos ou mesmo a roupa e os sapatos a brilhar que nos vestiram para conhecermos os novos amigos com que, umas vezes, trocámos segredos e outras tantas amuámos.
Quando deixámos de ser crianças almejamos encontrar o outro, o que nos oferece o Amor e daí nos fica sempre o primeiro encantamento, o primeiro olhar, o primeiro beijo.
Da vida mais adulta, consoante, os lagedos percorridos assim as memórias.
Há quem retenha como inesquecíveis os momentos em que partilhou o sonho da eternidade com o outro de quem sonhou fazer parte, outros há que buscam sempre na memória o dia em que se sentiram "o dono do Mundo" porque se sentiram tão grandes como ele e com ele seguiram no sonho, ao passo que há quem traga sempre na retina, quanto no coração, o momento em que ofereceu Vida.
Verdadeiros relicários, estes pedaços de Vida são magia.
Mas a sua verdadeira magia só nos toca quando, um dia, temos a alegria de torná-los um património que não é só nosso.
O meu "quadro-mágico" ganhou novas cores quando, mais de trinta anos volvidos, foi também lousa para os desenhos do meu menino e, ainda depois, a minha menina quis aprender a contar com aquelas contas de tantas cores, ao mesmo tempo que rabiscava as cores dos vários paus de giz que lhe ofereci pela primeira vez.
E é sempre uma aventura quando podemos recordar, lado a lado, com velhos amigos os momentos da escola e as pequenas aventuras da adolescência: desde as cerejas temporãs compradas à hora do recreio até ao primeiro beijo dado nas traseiras da escola secundária.
Hoje, entendo, ainda melhor, o que é partilhar as marcas da emoção: seja aquelas em que me senti, literalmente, a dona do Mundo porque os sonhos que tinha sonhado vieram ter comigo, mas também aqueles momentos em que a emoção me abrasou, mas pela dor e pelo medo.
Aquelas em que eu, tal qual uma menina atrapalhada com a primeira conta de dividir (porque há coisas que parecem nunca fazer sentido!), senti que nunca mais seria capaz voltar a ser quem era.
Essa uma dádiva que apenas encontramos quando sentimos que somos nós o grande, o enorme amor de nós mesmos, mas, ainda mais, quando encontramos esse amor estampado na Luz de um olhar que nos mira de soslaio - um olhar de profundo afecto, de entrega única. De encontro.
É o "chegar a casa" depois de uma epopeia, que é a Vida, e sentir inaugurar-se um tempo em que se é amado porque sim e se ama porque se ama.
Amo-te Muito, Meu Amor, e Tanto
Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.
Jorge de Sena
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,
um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.
Jorge de Sena

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