segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Da Saudade

Há muito que fui convocada pela saudade: essa belíssima película que nos recobre sempre que deixamos para trás - no tempo, no espaço ou em nós - pedacinhos com que fomos sendo, passo a passo, construídos.
Se hoje aqui estou, se olho para o presente como tal - um enorme presente!, é porque sei que vivi.
A saudade, não mais do que a ternura envolvida pelo desejo de viver de novo, é uma benção por que pudemos ser tocados: lá longe, num lindo recanto, encontro o momento em que senti nascer o meu filho; um pouco mais perto, miro aquele outro segundo em que a Vida me ofereceu a minha menina; não deixo nunca de ver os momentos únicos em que o meu pai brincava comigo ao fim da tarde, depois de me ir buscar à escola e me oferecer o gelado, nem aqueles em que, salpicando todo o Caminho, sempre me encontrei nos olhos de quem amei, de todos os que me mergulharam no seu coração e que, desde então, tatuam a minha Alma.
Não olvido, claro, os momentos em que firmei a eternidade com cada um dos meus amores: encontro-os em mim como memória de um tempo em que a inocência era, ainda, mais premente.
Hoje, neste presente - um presente embrulhado numa lista de papel de todas as cores do arco-íris e com um laço da cor dos olhos que, de soslaio, me descobrem - sei que vivi pelas memórias de quem fui sendo e de tudo o que resgatei para mim.
Melhor, sei que vivi muito e muito bem pela saudade que me assola: a vontade de viver.
É que a saudade nunca é uma imagem, um instante só que depois se desvanece; a saudade é uma força de Vida que nos leva do passado ao futuro, oferecendo-nos um presente: o presente.
Esta ternura tão especial relembra-me sempre que o passado é uma nebulosa que apenas, ao longe, muito devagar e com os olhos plenos de Vida, podemos um dia tentar descobrir; nebulosa que tendo ficado para trás sempre faz brilhar, ainda mais, todas as estrelas que hoje são o nosso tecto de firmamento e posta os olhos no futuro, permitindo-nos sempre ver mais além.
Amo a Vida mas sei que sem saudade não a saberia sentir.



Saudade é ser, depois de ter
Guimarães Rosa

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