domingo, 21 de novembro de 2010

A busca da simplicidade

Nestes tempos modernos: os da eficiência, da eficácia e do planeamento, até do mais absurdo - deixando-me estupefacta quando ouço alguém dizer que "planeia ter um filho daqui a dois anos" ou apenas dedicar-se à "sua vida pessoal quando tiver uma sólida posição financeira" - damos conta de um Homem para quem o culto é o do "ocupar-te-às até à morte".
É a chamada "Tirania do Fazer" pois que, ainda que nada faça, este Homem exibe ao Mundo como se dedica ao importante - a eficácia - e mostra, igualmente - o que lhe dá virtude - o quanto está indisponivel para as "coisas menores", desde logo para os que vivem em seu redor.
É aquele para quem os pequenos-almoços são já reuniões de trabalho, a secretária ou os outros colaboradores não passam de mais um instrumento necessário ao trabalho - de quem muitas vezes nem o nome sabe e no Natal presentea com a caixa de bombons que a eles mesmo mandou comprar, o que olha o Mundo de cima porque já tem medo de olhar nos olhos de quem se lhe depara, pois afinal isso é mesmo humano e para quem a realização máxima é mesmo exibir o carro desportivo de grande cilindrada junto dos seus pares quando vai àquela reunião tardia, aquela de que ele gosta mesmo de ir porque assim lhe permite estar longe das pequenas cabeças loiras, que, ainda de vez em quando, lhe vão pedindo "Pai, conta-me uma historia".
Este é o Homem para quem é fraqueza estar doente ou fatigado, tirar uma folga para ir respirar ou assistir à representação da Ovelha na peça da Festa de Natal, afinal ver a sua filha dizer umas pequenas palavras, quase sempre envergonhadas e titubeantes, mas inesquecíveis, sobretudo se o forem para uma plateia que não a do coração.
É o Homem pleno de gadgets, atulhado de convites, com uma notoriedade única mas o unico zumbido que consegue ouvir é o do vazio.
É aquele que até no lazer não pode ficar inactivo: ou são as actividades desportivas programadas ao segundo, ou as visitas guiadas intensivas, chegando, mesmo ao absurdo de não se deixar dormir sem despertador. Pois, de outra forma, como conseguiria conviver com a culpa do "dolce fare niente"?
Eu, que nada sei, apenas me permito mirar.
E digo que este é um Homem absolutamente desencontrado de si, infeliz porque nem sabe quem é, um verdadeiro prisioneiro de si mesmo.
Também eu adoro trabalhar, e fazê-lo tão bem como possa, melhor a cada instante, com o ímpeto de saber todos os dias quase novas, aprendendo um pouco mais. E, por isso, tenho que planear, gerir, fazer muitas coisas e viver a mil, às vezes, a dois mil à hora.
Mas como poderia fazê-lo sem contemplar a Vida, olhando por tantos minutos o balançar das àrvores que são as minhas vizinhas predilectas, partilhando o jantar que cozinho para todos os que amo - e que começa no aroma até ao petiscar atrevido, embevecendo-me sempre com um sorriso?
E como seria eu sem chorar ao ler aquele poema ou sem ouvir a dormir o telefonema noctívago e aflito da "sister" mais nova que sempre precisa de mim ou sem cantar ópera com a miudagem no caminho para a escola?
Nunca!
Só nos momentos de abandono, de busca da simplicidade, que é afinal, o nada, o Homem se pode encontrar.
Na essencia do Homem, como na da Natureza, está a plenitude: "deixar ir para deixar ser".
Sejamos Homens!




"Paciência e duração de tempo fazem mais do que força ou raiva" La Fontaine.

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