domingo, 24 de outubro de 2010

"amo-te absolutamente"

Vivemos o Tempo do relativo.
O que era a certeza da carreira para uma Vida terminou há muito para dar lugar a uma busca incessante de novos conhecimentos para estarmos, quase sempre, prontos para a reconversão.
Pena, digo eu, que não seja para que procuremos o sentido da Vida que vivemos e encontrarmos, no momento certo, qual o nosso Caminho, para que, seja qual ele seja, de seguida percorrê-lo ainda que nos leve para um lugar estranho, inusitado ou absolutamente novo.
Aquela que era a casa de sempre também se foi: fosse ela a residência da familia alargada, a casa "alugada" ou já a casa própria, logo que escolhida tinha a consistência de uma eternidade - as cores das paredes eram para durarem até não terem mais cor, as mobilias eram para serem consideradas tão familia como quem ali morava, como que um seu prolongamento e tudo o que era escolhido para enfeite era inamovível, de forma que até o pó sabia, sempre, onde podia alojar-se.
O automovel - era assim, que com pompa, se falava do carro - era visto como um investimento para durar até os filhos serem muito crescidos e, era por isso mesmo, ornamentado com o mais bonito crochet e o bibelot escolhido a dedo.
Toda esta segurança promanava da ideia de que uma família era uma célula indivisivel, em permanente união e que cresce em si, nunca para fora dela: os pais, que se haviam unido por serem uma mulher e um homem que se haviam afeiçoado, tornavam-se pais e tinham filhos, que com eles cresciam e que deles se emancipavam, depois de aprenderem algo do Mundo, estavam aptos a serem pai ou mãe, precisamente porque se haviam já afeiçoado.
Tudo era, então, do reino do absoluto.
Mas muitas vezes era um absoluto nunca escolhido, e muitas vezes tapulhado. Não raras vezes comportando o sofrimento de muitos.
Em tempo de relativo, digo eu de excessivo relativismo porque muitos são os que olvidam que a sua felicidade começa com um sorriso que só se faz belo quando partilhado, tudo o que é importante pode, ainda, ser absoluto.
O trabalho que façamos, qualquer que o seja em qualquer momento, pode ser eterno se nele depositarmos todo o nosso Amor: aquela seiva pura que nos atravessa e transforma em ouro toda a lata em que toca.
A casa onde vivemos, seja qual for e como quer que seja, pode ser sempre um lar: será assim absoluta.
O nosso veiculo: seja o par de patins, a trotineta, a bicicleta, como a mota ou o carro será sempre unico ainda que dure um dia, uma semana ou um ano, se nele fizermos a festa: digo-vos mesmo que nenhuma discoteca é tão boa como o carro onde fazemos a viagem matinal com todos os que amamos desde que o façamos a cantar e a dançar todas as nossas musicas predilectas.
E a nossa família e o Amor: qualquer um deles poderá ser sempre eterno, como nada mais.
Trata-se apenas de um acto de fé.
A nossa familia, qualquer que seja o rumo que adopte, será para sempre uma realidade: a única condição é o pleno respeito. Em respeito, tudo o que é uma Vida passada acompanha-nos e projecta no presente e para o futuro tudo o que foi projecto em andamento e faz-nos perceber que aquele foi um traço do Caminho que bem valeu viver porque sem ele nunca aqui estaríamos e sem esta consciência plena de que viver nunca é só respirar.
O Amor é, sempre ele, o que de melhor nos pode ser oferecido.
Absoluto?
Sempre!
Sem o sentido do pleno e do absoluto o Amor, afinal, não é Amor: será paixão, poderá ser afecto.
O Amor é paixão, é lealdade, é confiança, e dádiva. É o absoluto.
Assim, hoje que amo, não mais poderei dizer "amo-te muito" sim "amo-te absolutamente".


Assim o Amor


Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

Sophia de Mello Breyner Andresen

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