quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Esta sou eu, imutável e sempre em mudança

Em todas as Vidas, de todos os Homens, em variadíssimos momentos, coloca-se a questão, que é vital: "afinal para onde vou ?"
O Caminho fica um tanto desfocado, a Luz atenua-se e nós próprios, como meninos de sua mãe, hibernamos, envolvendo a Alma com pantufas, camisola e chocolate quente.
É o silencio - que é tão macio e envolvente, tal e qual como os braços de um pai, o meu, quando ao fim do dia, dizia "sim, sim, gosto muito de ti", quando em criança eu lhe perguntava, como quem busca um oásis, "cá mi pai?" - que sempre trará a resposta.
Aquele sussurar do coração à Alma e da Alma aos sentidos que, perscrutando, recanto a recanto, tudo o que somos, acaba por nos contar todos os segredos por desvendar: uma conversa sentida, aliviada e sem medo onde nos recobrimos de nós, como de um manto, e começamos, passo a passo, a entender tudo o que os olhos não vêem mas que a Alma premune.
Descobrirmo-nos é, afinal, o mais dificil da jornada: mesmo quando nos achamos crescidos, mesmo até amadurecidos e com a veleidade de conhecer quem vamos sendo. 
Entendo-me como uma constelação de estrelas - sempre com uma configuração definida, conhecida pelos demais pela forma que assume e com o brilho que costuma emanar: mas este é apenas o "retrato" de que de mim faz quem de longe me olha, ainda que aviado de telescópio e mesmo que apaixonado seja por este cintilar que pintalga os céus.
Pois que, configuração se a tenho, é mutável: prende-se com o sonho que o Mundo me oferece e o desafio que tenho de assumir.
A forma não é sempre absoluta: posso sê-lo, desde que se me ofereçam, ou já relativa dizendo-me só absoluta para mim.
O brilho não é, também, costumeiro: depende mais do cerrado da noite, que é a Vida, e de quem me oferece o seu olhar.
E, como sempre, volto a mim.
Volto às minhas memórias, aquele belíssimo álbum de retratos embutidos no coração, revejo-os no silêncio da conversa com o meu Deus, fecho os olhos e tenho sempre aquela mesma certeza: esta sou eu, imutável e sempre em mudança.





Tenho Mais Almas que Uma


Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.


Ricardo Reis

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