Não estamos sozinhos no Mundo: parece ser esta uma evidencia à la Palice. Mas nem sempre o é.
É certo que vivemos quase sempre a par, muita vezes em multidão; todavia tal não importa para que estejamos acompanhados.
Muitas. Tantas e tantas vezes, olhamos ao nosso redor e vemos porta-retratos em movimento: eles são os amantes que sorriem, é o pai e a mãe com os seus filhos, são os irmãos e amigos par a par.
Desses quantos não conseguem ser mais do que gente? Quantos ali estão porque não conseguem escapar à evidencia?
Muitos não representam mais do que um rosto para polaroid! Respondo-vos.
São aqueles que já não se conseguem emaranhar no sorriso do outro; efectivamente, deixaram de o conhecer.
Mas ali permanecem.
Não conseguem dizer adeus a quem foram, aquele outro eu que já foi andando, agora que cresceram; aquele eu que foi caminho a percorrer, mas que agora, é apenas caminho andado.
Sobretudo porque partir significa dizer-nos "parti um nó"! E saber que um outro nó ficará, para sempre, na nossa memória - a memória longa de um Homem que foi educado muito mais a tecer compromissos com o outro do que lealdades consigo mesmo, nem mesmo que desse compromisso com o outro provenha a deslealdade, a maior de todas, trair-se a si mesmo. E um Homem nem sempre consegue perdoar-se!
O novo é outra parte da equação: o romper da aurora é sempre incerto, nunca sabemos que madrigal virá. E o Homem tem medo do que não conhece.
Todavia há apenas uma forma para a Vida: desprendermo-nos do medo; pois só então, definitivamente, começamos a viver.
Sabendo, claro, que sofrer é parte dessa jornada: até porque um Homem que não sofre, ou que nunca sofreu, é um Homem despido de si, não tresanda da sua humanidade.
A sua virtude é a de saber que, não obstante o sofrimento, a Vida é um Caminho a seguir. Sempre.
E que nesse Caminho, passo a passo, avultam Almas com quem partilhamos luz: todos aqueles em quem nos conseguimos embaloiçar, com quem partilhamos os saberes indiziveis e com quem brindamos, mesmo ao insucesso: os nossos amores.
Sim! Porque os nossos amores são todos aqueles com quem, nem que seja um dia, soltámos uma gargalhada, aprendemos um poema, saboreamos um cacho de uvas sacado em movimento, encostámos o olhar num sonho e, por isso, nos ensinaram que nunca mais seremos iguais sem eles.
Pecado Original
Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Álvaro de Campos
Heterónimo de Fernando Pessoa

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