domingo, 31 de outubro de 2010

Ao espírito do Amor

Para mim as grandes festas são as do meu calendário que, raras vezes, coincide com as Tábuas do Mundo. Apenas para o Natal e para a Páscoa se resgista a excepção e pela circunstância de se festejarem momentos particularmente importantes da Vida do meu Mestre.
Sou mais de fazer a festa por tudo o que revolucionou a minha própria Vida.
E, por isso, desde há uma meia dúzia de anos que venho, passo a passo, a chegar-me ao dia de Halloween, pois que tendo aprendido o que se comemora, percebi que para mim teria todo o sentido, também, festejá-lo.
O povo Celta, regulando-se pela religião Wicca, festejava a noite de dia 31 de Outubro, o Samhain, como sendo aquela em o Deus Cornífero, o principio Masculino de todo o Universo, morria, após se ter apaixonado e festejado o amor com a Deusa Virgem, que fica grávida. Por isso o dia de todos os fins e começos e também a comemoração do Ano Novo Celta.
Mas aquela era uma morte diversa, posto que a alma do Grande Deus vive na criança não-nascida, a nova vida no ventre da Deusa Virgem.
Razão por que existe a crença de que é este o momento ideal para honrar os mortos, pois que nele os véus que separam os mundos estão mais finos, sendo possivel àqueles que morreram no ano anterior e aqueles que estão reencarnando passarem atraves dos véus e portais nessa noite, sendo, por isso, primordial iluminar-lhe o caminho com uma vela acesa em cada uma das nossas janelas.
E, nessa medida, é o momento do regresso dos espiritos dos mortos.
Por isso esta, também, será para mim uma noite de festa.
Depois de muito caminhar aprendi que a qualidade da relação que mantemos connosco, talqualmente aquela que mantemos com as nossas memórias, é que nos torna sadios ou mais atarantados.
Só o Homem que se defronta, sem encobrir a dor e desbravando o medo, pode um dia chegar até si: os seus recantos, as suas marcas, os seus atavios nunca lhe poderão ser omitidos, têm necessariamente de ser vividos. Pois que, apenas nesse momento, pode o Homem contemplar-se como uma obra prima e achar-se na sua plenitude.
O mesmo se passa com as memórias, aquelas que o poeta canta como "os livros escondidos no pó": um dia, perto ou longe, o Homem tem que olhá-las ou, pelo menos, mirá-las, para que entenda quem é, sabendo o que foi, quem foi importante na sua rota e quem lhe faz falta. São os espiritos mortos, ainda de quem possa estar vivo.
É o momento de entender que, por mais que o passado tenha sido doce, um momento de adeus ou uma pintura que ficou por terminar, é no presente que a Vida flui e que ela, prenhe dos sonhos, se revela sempre em todo o seu esplendor.
É, por isso, o Tempo de acender uma vela para que, com todo o nosso Amor, todos os espiritos voltem à sua morada e, apaziguados, vivamos de novo.
Será com uma luz muito brilhante, postada na janela, que festejarei ao espirito do Amor, ao começo de uma Vida nova.





É Preciso Aprender a Amar


Que se passa para nós no domínio musical? Devemos em primeiro lugar aprender a ouvir um motivo, uma ária, de uma maneira geral, a percebê-lo, a distingui-lo, a limitá-lo e isolá-lo na sua vida própria; devemos em seguida fazer um esforço de boa vontade — para o suportar, mau-grado a sua novidade — para admitir o seu aspecto, a sua expressão fisionómica — e de caridade — para tolerar a sua estranheza; chega enfim o momento em que já estamos afeitos, em que o esperamos, em que pressentimos que nos faltaria se não viesse; a partir de então continua sem cessar a exercer sobre nós a sua pressão e o seu encanto e, entretanto, tornamo-nos os seus humildes adoradores, os seus fiéis encantados que não pedem mais nada ao mundo, senão ele, ainda ele, sempre ele.
Não sucede assim só com a música: foi da mesma maneira que apendemos a amar tudo o que amamos. A nossa boa vontade, a nossa paciência, a nossa equanimidade, a nossa suavidade com as coisas que nos são novas acabam sempre por ser pagas, porque as coisas, pouco a pouco, se despojam para nós do seu véu e apresentam-se a nossos olhos como indizíveis belezas: é o agradecimento da nossa hospitalidade. Quem se ama a si próprio aprende a fazê-lo seguindo um caminho idêntico: existe apenas esse. O amor também deve ser aprendido.
Friedrich Nietzsche



sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Da Intimidade

Cada Homem é diferente do outro pelo seu pensamento e pela sua intimidade, afinal os dois últimos redutos onde ele se acha singular e absolutamente só.
Mas se o pensamento é um invólucro fechado e selado, onde só a nossa consciência pode penetrar; ao invés, a intimidade é um jardim interior, com claustros. Belissimo. Aberto a quem o franqueamos.
E nada, nada mesmo, mais liga quem bem se quer do que a intimidade: ser visita, hóspede ou residente daquele recanto que existe em cada um de nós significa ter um código único para a partilha do nosso uno.
Sempre que se divide um toque de pele, se oferece uma troca de olhares ou um cheiro se mistura nada mais é igual para quem se partilha: não, não fica sem nada; ganha sempre mais.
Nunca mais se é igual e nunca mais se vive só.
Quem oferece o seu toque ganha, como não antes, um aveludado único, pois recebeu a maciez de uma outra pele.
A luz de quem viu outro olhar, que com o seu se misturou, fica muitissimo mais brilhante.
O cheiro que era o seu, não mais é igual: a sua fragrância é outra, a fragrância do outro é também, já, diferente.
Os amantes são os mais afortunados dos seres porque sabem, como ninguém, dividir tudo o que os torna diferentes, singulares e, depois dessa mescla, descobrem um outro lugar que só para eles existe: aquele onde ambos se encontram, longe do Mundo, do Homem, onde a Vida pára e, acho eu, até Deus tem pudor de espreitar, tal é a beleza pura, qual encantamento de fadas, que ali se vive.
Afortunada, eu, que venho desde há muito nesta jornada do Caminho transformando a minha intimidade num recanto único, pleno de beleza e silêncio, fui contemplada por uma enorme, enormíssima oferenda: um residente, um magnífico residente que, vivendo já neste jardim, com ele tudo divido e de quem tudo recebo, por ter morada em seu reduto.
E se sabia, hoje sinto: um amante é um ser único porque tudo em si é uma oferenda: olhares, beijos, chocolates e flores são momentos eternos porque nos fazem felizes para sempre!




Ternura


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Nada de mais belo existe que viver quem somos

Em tempos de propalada crise - coisa que ainda não sei bem o que é - cada vez é mais pungente a interrogação: "o que me faz feliz?"
A questão primordial, a mais urgente mas, também por isso mesmo, a mais dificil de todas. Não a pergunta, naturalmente... a resposta!
Tão ocupados com o Mundo, tão embrenhados no futil, tão entretidos com o outro, esquecemo-nos do eu.
Tanto ruído, doce e cómodo ruído, que nos fez distrair daquele mergulho no único recanto que sobra só para nós mesmos: a Alma - a forja dos sentimentos, dos sonhos e dos pensamentos.
A Alma: morada da Eternidade, que espera de nós uma visita, uma olhadela ou mesmo só, apenas, um soslaio sorridente, vê-se cada vez mais alheada.
Somos "meninos" destravados que correm atrás do primeiro que iniciou, sem saber porquê, a corrida e assim vamos indo, andando, correndo, sem bem saber a razão, nem o destino, até, que de tão esgotados, sucumbimos.
Perdidos!
Absolutamente perdidos!
E eis que, de repente, quando assaltados pela dita "crise" parecemos acordar, e sabedores de tudo o que é o Mundo, quem são todos os outros e real futilidade dos dias daquela imensa corrida, descobrimos que nada, quase já nada, sabemos já do eu: dos nossos sentimentos, dos nossos sonhos, dos nossos pensamentos.
O susto é grande.
Mas uma benção, a melhor de todas, creiam.
O "puxão de orelhas" que a Vida nos vem oferecer, o sussuro estridente que nos acorda para que ousemos ter a coragem de ser quem somos.
Melhor, muito melhor, sermos quem desejamos ser e que, acoitados do Mundo e dos outros, escondemos ser: convenções, estereótipos, atavios, cinismos, medos, penúrias - tudo o que nos tolhe e que, agora, teremos de desbravar para nos descobrirmos e sermos quem somos.
Quem sempre geriu a Vida como um negocio criado para o Mundo terá, forçosamente, de reconvertê-lo: impõe-se ao Homem, ao eu, que seja, finalmente, quem é.
E, se nada mais dificil se afigura ao Homem que ser quem é, mas, também, nada mais belo existe que viver quem somos.   





"Se queres vencer o mundo inteiro, vence-te a ti mesmo"
Fiodor Dostoiesvski

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O sonho é o passaporte da viagem para o sem fim

Conhecida sou por ser a mulher dos pés na terra, a dos olhos no Mundo e a da cabeça sempre, mas sempre nas nuvens: o sonho em andamento.
Perfilho o modo da simplicidade e da inocência e, por tal, de outra forma não poderia ser.
Andando por este Caminho, já com alguma lonjura, apercebo-me que a realidade nos impele a que nunca deixemos, quase nem por um só instante, de curar de quem amamos, mas, sobretudo, de nós mesmos.
Não porque o desconhecido seja de susto, não porque o outro nos deva infligir medo, nada disso.
Tão-só porque o mimo, o apreço do cuidar, é o maior sinal de Amor que podemos servir-nos e dar a quem amamos.
As palavras são, quando prenhes de Luz, um farol: um guia. Mas, apenas, um guia.
Já os gestos são a verdade do Amor: quem ama cuida, quem cuida ama!
Por isso a atenção tanto se tem de prender à realidade, à Vida. Apenas sondando o que ela nos oferece, momento a momento, saberemos como ela nos escolhe.
Mas apenas se pode mirar a Vida se os olhos se virarem ao Mundo: quem é cada um de nós despido do outro, da natureza, das múltiplas realidades incontáveis que o Homem fabrica com a sua energia de criação, sem a paz da busca incessante do novo em cada recanto já visto e revisitado tantas e tantas vezes?
Nada, habilito-me a dizê-lo!
Novo a cada momento o Mundo oferece-nos o elixir da mudança mas, ainda mais, muito mais, do deslumbramento.
Nada é tão belo como ver duas, três, dez ou cem vezes o mesmo pormenor e descobrir sempre um novo requebro. Nada mesmo!
Que mais belo haverá que visitarmo-nos diariamente nos olhos de quem amamos e descobrirmo-nos um dia ainda mais inteiros? O que mais ventura nos trará que encontrar a novidade constante na conversa que, sempre, escorre na mesa de jantar entre os convivas habituais?
Todavia apenas um Homem que sonha é um Homem capaz de reunir-se ao Mundo e sentir a Vida.
O sonho é o passaporte da viagem para o sem fim, aquele sítio onde tudo é possivel: os meninos riem, o Homem sente a plenitude e a glória é partilhar a felicidade; tudo brindado com alegria. Pois, também,o único verdadeiro elixir.
De traço em traço, passo a passo, hoje sei que só pelo sonho o Homem sabe o Mundo e sem o sonho um Homem nunca vive.







Mergulha nos Sonhos


mergulha nos sonhos
ou um lema pode ser teu aluimento
(as árvores são as suas raízes
e o vento é o vento)

confia no teu coração
se os mares se incendeiam
(e vive pelo amor
embora as estrelas para trás andem)

honra o passado
mas acolhe o futuro
(e esgota no bailado
deste casamento a tua morte)

não te importes com o mundo
com quem faz a paz e a guerra
(pois deus gosta de raparigas
e do amanhã e d
a terra)

E.E. Cummings

domingo, 24 de outubro de 2010

"amo-te absolutamente"

Vivemos o Tempo do relativo.
O que era a certeza da carreira para uma Vida terminou há muito para dar lugar a uma busca incessante de novos conhecimentos para estarmos, quase sempre, prontos para a reconversão.
Pena, digo eu, que não seja para que procuremos o sentido da Vida que vivemos e encontrarmos, no momento certo, qual o nosso Caminho, para que, seja qual ele seja, de seguida percorrê-lo ainda que nos leve para um lugar estranho, inusitado ou absolutamente novo.
Aquela que era a casa de sempre também se foi: fosse ela a residência da familia alargada, a casa "alugada" ou já a casa própria, logo que escolhida tinha a consistência de uma eternidade - as cores das paredes eram para durarem até não terem mais cor, as mobilias eram para serem consideradas tão familia como quem ali morava, como que um seu prolongamento e tudo o que era escolhido para enfeite era inamovível, de forma que até o pó sabia, sempre, onde podia alojar-se.
O automovel - era assim, que com pompa, se falava do carro - era visto como um investimento para durar até os filhos serem muito crescidos e, era por isso mesmo, ornamentado com o mais bonito crochet e o bibelot escolhido a dedo.
Toda esta segurança promanava da ideia de que uma família era uma célula indivisivel, em permanente união e que cresce em si, nunca para fora dela: os pais, que se haviam unido por serem uma mulher e um homem que se haviam afeiçoado, tornavam-se pais e tinham filhos, que com eles cresciam e que deles se emancipavam, depois de aprenderem algo do Mundo, estavam aptos a serem pai ou mãe, precisamente porque se haviam já afeiçoado.
Tudo era, então, do reino do absoluto.
Mas muitas vezes era um absoluto nunca escolhido, e muitas vezes tapulhado. Não raras vezes comportando o sofrimento de muitos.
Em tempo de relativo, digo eu de excessivo relativismo porque muitos são os que olvidam que a sua felicidade começa com um sorriso que só se faz belo quando partilhado, tudo o que é importante pode, ainda, ser absoluto.
O trabalho que façamos, qualquer que o seja em qualquer momento, pode ser eterno se nele depositarmos todo o nosso Amor: aquela seiva pura que nos atravessa e transforma em ouro toda a lata em que toca.
A casa onde vivemos, seja qual for e como quer que seja, pode ser sempre um lar: será assim absoluta.
O nosso veiculo: seja o par de patins, a trotineta, a bicicleta, como a mota ou o carro será sempre unico ainda que dure um dia, uma semana ou um ano, se nele fizermos a festa: digo-vos mesmo que nenhuma discoteca é tão boa como o carro onde fazemos a viagem matinal com todos os que amamos desde que o façamos a cantar e a dançar todas as nossas musicas predilectas.
E a nossa família e o Amor: qualquer um deles poderá ser sempre eterno, como nada mais.
Trata-se apenas de um acto de fé.
A nossa familia, qualquer que seja o rumo que adopte, será para sempre uma realidade: a única condição é o pleno respeito. Em respeito, tudo o que é uma Vida passada acompanha-nos e projecta no presente e para o futuro tudo o que foi projecto em andamento e faz-nos perceber que aquele foi um traço do Caminho que bem valeu viver porque sem ele nunca aqui estaríamos e sem esta consciência plena de que viver nunca é só respirar.
O Amor é, sempre ele, o que de melhor nos pode ser oferecido.
Absoluto?
Sempre!
Sem o sentido do pleno e do absoluto o Amor, afinal, não é Amor: será paixão, poderá ser afecto.
O Amor é paixão, é lealdade, é confiança, e dádiva. É o absoluto.
Assim, hoje que amo, não mais poderei dizer "amo-te muito" sim "amo-te absolutamente".


Assim o Amor


Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Esta sou eu, imutável e sempre em mudança

Em todas as Vidas, de todos os Homens, em variadíssimos momentos, coloca-se a questão, que é vital: "afinal para onde vou ?"
O Caminho fica um tanto desfocado, a Luz atenua-se e nós próprios, como meninos de sua mãe, hibernamos, envolvendo a Alma com pantufas, camisola e chocolate quente.
É o silencio - que é tão macio e envolvente, tal e qual como os braços de um pai, o meu, quando ao fim do dia, dizia "sim, sim, gosto muito de ti", quando em criança eu lhe perguntava, como quem busca um oásis, "cá mi pai?" - que sempre trará a resposta.
Aquele sussurar do coração à Alma e da Alma aos sentidos que, perscrutando, recanto a recanto, tudo o que somos, acaba por nos contar todos os segredos por desvendar: uma conversa sentida, aliviada e sem medo onde nos recobrimos de nós, como de um manto, e começamos, passo a passo, a entender tudo o que os olhos não vêem mas que a Alma premune.
Descobrirmo-nos é, afinal, o mais dificil da jornada: mesmo quando nos achamos crescidos, mesmo até amadurecidos e com a veleidade de conhecer quem vamos sendo. 
Entendo-me como uma constelação de estrelas - sempre com uma configuração definida, conhecida pelos demais pela forma que assume e com o brilho que costuma emanar: mas este é apenas o "retrato" de que de mim faz quem de longe me olha, ainda que aviado de telescópio e mesmo que apaixonado seja por este cintilar que pintalga os céus.
Pois que, configuração se a tenho, é mutável: prende-se com o sonho que o Mundo me oferece e o desafio que tenho de assumir.
A forma não é sempre absoluta: posso sê-lo, desde que se me ofereçam, ou já relativa dizendo-me só absoluta para mim.
O brilho não é, também, costumeiro: depende mais do cerrado da noite, que é a Vida, e de quem me oferece o seu olhar.
E, como sempre, volto a mim.
Volto às minhas memórias, aquele belíssimo álbum de retratos embutidos no coração, revejo-os no silêncio da conversa com o meu Deus, fecho os olhos e tenho sempre aquela mesma certeza: esta sou eu, imutável e sempre em mudança.





Tenho Mais Almas que Uma


Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.


Ricardo Reis

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Para Ser Grande, Sê Inteiro

Poucas pessoas têm o arrojo de serem quem são.
Simplesmente porque ser quem se é semeia um custo que nem mil ventos arrasam.
Ensinaram-nos maneiras, regras de convivência e até a semear sorrisos quando as faces estão mais tingidas de dor - aquilo a que chamo os atavios de forma prosaica, para que possa deixar de dizer que nos foram, ao longo dos anos, ensinando a arte de sermos fingidos, a hipocrisia ou, de forma mais redonda, a arte da diplomacia.
Se o direito a ser diferente está mais do que consagrado, e já vai sendo vivido; certo é que nem sempre a diferença deixa de nos assustar, quer pela novidade, quer pelo confronto daquela verdade com a verdade que é a nossa.
E surge, inevitavelmente, aquele olhar escoado pelo canto do olho, como que a perscutar afinal porque há a necessidade de ser diferente; pois há ainda quem se acomode ao fogo do habito: aquela belissima zona de conforto onde, mais do que qualquer outra coisa, os habitos, por tanto se usarem, passaram a ser uma fragrancia, a fragancia doce dos "lugares de sempre", dando lugar a desejo mas basico de todos nós, o reconhecimento.
Poucos são os que aplaudem a diferença, muito poucos o que sabem viver diferentemente: esses são Mestres.
São eles que nos assobiam à consciência e, sem aviso, nos impelem a ir mais longe: bem dentro de nós próprios, em busca da nossa singularidade que é, ela mesma uma das faces do Mundo.
Dizem-nos como o Mundo é belo, que a Vida tem magia, que o dia não tem noite e que nada seria igual sem nós por cá: aqueles por quem se estende a "carpete vermelha" porque ousaram ser inteiros.
Mestres são, pois, os que nos ensinam que a unica grandeza que é mesmo nossa é a que provém da capacidade de sermos felizes, fazendo-nos simples, grandes e assim inteiros.
Em plagio, "para ser grande, sê inteiro", ditam os Mestres.








quarta-feira, 13 de outubro de 2010

De olhos fechados

Mais do que nunca dominam as tabelas, as quantificações, as estatísticas, como que querendo o Homem, aflito, reduzir a realidade, enorme, cada vez mais ampla, à efemera realidade dos números.
Simplificação, dirão uns.
Confusão, digo eu.
O Homem está cada vem mais em engano acerca do que é a inteligência: aquele oasis que procura desesperadamente para a sua sede, naquele que pensa ser o deserto da sua Vida.
Mas nem a Vida é um deserto, como nem a inteligência é um oasis.
A inteligência é tão-só a capacidade de tornarmos nosso o conhecimento do real, trazer para nós, para dentro da "nossa biblioteca uns não sei quantos livros".
Mas esta é um capacidade que, solitária, nada empresta ao Homem: tem o mesmo exacto valor que os volumes da extensíssima enciclopédia, umas dezenas, que empoeirados aguardam uma visita na prateleira mais alta da estante da sala de leitura - praticamente nenhum, digo eu.
Tal como os livros, que são sempre mais belos quanto mais coçados se encontram, o que nos oferecemos por virtude da inteligência só nos vale quando o vivemos, quando o relemos, quando o sentimos do nosso modo e à nossa medida.
Nada sabemos de verdade se não o dimensionarmos a nós. Talqualmente fazemos ao eterno livro de cabeceira, o que nos acompanha desde sempre.
É nesse embrulho que tudo muda: a realidade já não é só matéria e o Homem já não é o mesmo Homem.
Esta é a razão porque um Homem verdadeiramente inteligente é, sem excepção, um Homem sempre feliz.
Nunca se alheia do Mundo, pois sabe-se seu também; não tem preconceitos pois já sabe que é na diferença que a Vida está sempre mais rica e sabe olhar cada um dos outros, cada um dos outros Homens, como um igual.
Mas, sobretudo, sabe venerar o pedaço de divindade que há em cada Homem, porque já a conhece.
Não porque essa seja uma das matérias que aprendeu, foi, sim, o que já descobriu olhando-se.
Pois este Homem, que é verdadeiramente sábio, sabe que sabe, não somente porque aprendeu, mas sim porque aprendeu com um sorriso.
E, é por isso que, é de olhos fechados que ele sabe da Vida: é assim que tudo vê porque tudo o que precisa saber está dentro de si.


O Caminho da Salvação

A cegueira e a obstinação dos homens lembra-me às vezes a cegueira e a obstinação das varejeiras enfrenizadas contra as vidraças. Bastava um momento de serenidade, dez-réis de bom senso, e em qualquer fresta estava a liberdade. Mas o demónio da mosca, quanto mais a impossibilidade se lhe põe diante, mais teima. O resultado é cair morta no peitoril.
Não se pode fazer ideia da maravilha de criança que era a filha de um poeta de meia tigela que hoje me lia versos impossíveis, a empurrá-la enfastiado com a mão esquerda, quando ela graciosamente o interrompia. A canção enluarada, a quadra perfeita, o soneto verdadeiro que justificavam aquele homem estavam ali, a brilhar nos olhos da pequenita; e o desgraçado às turras à janela, a zumbir e a magoar-se, sem ver que tinha diante de si o verdadeiro caminho da salvação!


Miguel Torga

terça-feira, 12 de outubro de 2010

As palavras silenciosas

Sou das que diviso que a cada Homem se impõe que viva por si mesmo.
Mas é, também certo, que vivemos em permanente estado de vinculação: por muito que um Homem esteja só sempre se encontra enredado numa múltipla e bela teia de cumplicidades, ligações e afectos que são, afinal, a paisagem colorida que ladeia as margens do seu Caminho.
E nessa meada, nesse entrelaçamento, tanto nos vamos enovelando ao descobrir de nós como de quem se mistura connosco!
Nunca nos conhecemos bem antes de termos a capacidade de nos despirmos de tudo o que não somos perante quem connosco se vincula e, mesmo, só passamos a ter a noção de quem podemos ser quando temos a capacidade de nos misturararmos com quem nos partilhamos.
E, descontados os sábios - os que têm a ventura de nascer com uma alma velha - a outra parte dos Homens trouxe muito pouco de seu. Razão porque tudo, quase tudo, lhe é doado.
A doacção de emoções é, certamente, a grande oferta.
A oferta!
É um espaço permanente de entrega: não há momento em que um Homem não transforme a Vida do outro pelo que lhe oferece.
São as palavras - as pérolas, as belas pérolas tingidas de Vida, que ressuscitam almas, que desbravam Caminhos, que ensinam magia e suscitam sonhos - que nos oferecem que sempre, quase sempre, nos fazem festejar o canto de nós que estava, há tanto tempo, escondido na bainha do nosso coração: há, mesmo palavras, que nos relembram o tinir do seu compasso descompassado.
Mas nunca são as palavras que relembramos porque elas são, sempre, invariavelmente, escassas!
É o murmurio, aquele refulgar quase silencioso que nos faz registar a voz única de quem as disse.
É o sorriso que as enfeita, que as vivifica, que as torna prenhes de significado e, assim, com as suas molas as prende à Vida.
É a luz do olhar de quem as entrega, aquela bela luz do olhar, que as crava na nossa Alma e nos ensina para sempre. 
Mas, sobretudo, são as palavras silenciosas - as que nunca são ditas, mas que premonimos - que nos enchem o coração e nos falando, como anjo num sonho, nos relembram aquilo que sempre soubemos: só aprendemos bem aquilo que sentimos, muito melhor do que aquilo que sabemos.  


Há Palavras Que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperançar louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

domingo, 10 de outubro de 2010

Todos eles são Mestres, eu sempre a aprendiz

Vivo feliz!
Proferir uma destas declarações, como um voto, num momento em que as explosões, as falências e as desgraças são o afã parece fazer de mim uma temerária.
Serei.
Mas, sempre, o serei tão-só porque a cada dia encontro todos os motivos para, não só sorrir, mas também fazer a festa.
Os Homens são absolutamente maravilhosos.
Cada um deles contém, em si mesmo, um tesouro.
Em cada dia da Vida que já saboreei fui encontrando pessoas que, sendo tão diferentes, tudo me vão ensinando; cada um à sua maneira.
Nasci de pessoas que me mostraram o sentido da liberdade e o da dignidade, desafiando-me a voar, a voar, a voar sempre mais alto, mais longe e, mais, desafiando-me a desafiar.
Cruzei-me e encontro-me com milhentos amigos que deram conteúdo aquilo que sou: dão-me o seu tempo, ensinam-me a ler as histórias e a construir estórias, cativam-me, sempre.
Transformam-me numa rosa, a flor que criaram com o seu amor.
Aportei no coração de alguns. Esses amores ensinaram-me a olhar para mim mesma, fizeram-me descobrir que sou uma mulher tanto quanto uma pessoa e ofereceram-me, cada um deles, uma prenda única. Eterna.
Hoje amo com paz e loucura como só a felicidade ensina e sou amada com grandeza, com uma nobreza que só a sabedoria de um coração grande, enorme sabe presentear.
Ofereci ao mundo duas gaivotas em constante, permanente voo rasante: lindos, loucos, sábios.
Com aquela sabedoria de que nada quer ensinar e tudo diz na cor das palavras aconchegantes: "és linda, mãe", "estás tão bonita hoje", "boa dia, adoro-te" e tanto, tanto que só mesmo o olhar doce e os beijos ensonados se lhes igualam.
Todos eles, estes Homens maravilhosos, ajudaram-me a sacar à luz do dia o que nem eu sabia ser.
Disseram-no, sobretudo, com a esperança no seu olhar e rasgando-me o horizonte, fazendo-me pular "over the rainbow" para lá cimentar todos os sonhos.
Os meus e os deles, os que eu sonho e os que eles me inspiram.
Após esta excursão tão imensa, que é mesmo um mergulho, apenas sei que de meu, pouco ou quase nada, sei, tudo eles me ensinaram.
Todos eles são Mestres, eu sempre a aprendiz.



"Foi o tempo que perdi com a minha rosa que a fez tão importante". Antoine de Saint Exupéry

   

sábado, 9 de outubro de 2010

É mesmo um só até já

Não gosto, nem nunca gostarei, de despedidas.
Mas, então, como explicar que em todos os cais de embarque - nem mesmo que seja a mais rudimentar das estações de caminho de ferro perdida entre nenhures - seja assaltada por uma emoção incontida?
Será pela amálgama indefinida de pessoas que transmutadas pela velocidade e pelo desconhecido me dão uma consciência de plenitude, ou será então aquele passo apressado de rostos tão distintos que buscam trajectos opostos que me mostram que a ambiguidade é mesmo a unica das metas que quero seguir?
Seja por uma viagem de 10.000 quilómetros como por outra de somente 10 o sono sempre debanda, a mala enche-se e a ânsia da descoberta nunca, mas nunca, parte: ali está ela, lado a lado, é mesmo a melhor companheira de viagem.
Guardo de todas, e de cada um das viagens, os olhos cheios: plenos de Mundo, arrasados de Vida mas, ainda mais, os verdadeiros "gifts": a alegria de escrutinar bem dentro de mim a mudança!
E viajo muito - vou dentro do meu coração, à Alma que sempre me percorre e embarco em todos os que amo: encontro os meus pedaços, vejo o efémero, mas ainda tudo aquilo que é o cimento que me liga para sempre a mim mesma e a cada um deles, os meus amores: uma partitura que regista a banda sonora de quem somos, a melodia eterna das risadas que partilhamos.
Sempre que aporto, vinda de mais uma jornada, aprendo que o Mundo é cada vez maior, parece mesmo de elástico; mas que, mesmo maior, só o Mundo que habita em mim.
Aquele que contém todas as emoções que já vivi: as lágrimas em torrente de sentir que vou, um dia, ver as minhas gaivotas a voar bem no alto, as sonoras gargalhadas porque há sempre um louco, um louco destemido, um ousado louco destemido que se pensa mais ousado, louco e destemido do que eu, o sorriso mais brando e mais tranquilo, sempre o mais bonito, quando ao fim do dia, abro a porta de mim a quem mais quero, em silêncio.
Mas nunca digo adeus.
Não porque ainda tenha essa superstição: não! Já me despedi, de vez, do medo do adeus.
É que a Vida me ensinou e eu já aprendi que os amores, os pedacinhos de nós que andam espalhados pelo Mundo, errantes, nunca partem.
Nem, mesmo, que as malas tenham sido feitas, os polaroids retirados, os telefones tenham emudecido, nada disso é sinal, o menor indício, de que os amores partiram.
Os amores decalcam-se-nos na Alma, na pele e no cheiro. São cada um deles a parte de um enorme vitral que somos nós. Razão por que, assim, mesmo ao longe, sempre nos iluminam.
Tenho muitos amores. E alguns pareceram ter partido mas não: uns são as estrelas que brilham mais no firmamento em cada noite e que me sorriem e me murmuram, muito baixinho, sempre que é preciso contar-me mais um novo segredo, outros desbravam caminho, o seu Caminho e o meu Caminho também e em silêncio me vão falando, mostrando-me que não há longe, nem distância.
Assim porque lhes diria adeus?
A nenhum deles direi, nunca, adeus porque me têm consigo: é mesmo um só até já.


Esta Noite Morrerás


Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.


Ana Hatherly

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O pormenor do simples

Do que gosto mesmo são das pessoas que me inspiram a ser melhor, a rir mais e a dar o mais que posso ao Mundo, ao Homem, a amar a Vida e a Deus. Tanto quanto a mim mesma.
São, não gente, mas pessoas felizes.
Pessoas que aprenderam que o melhor sol é aquele que nos traz o sorriso dos que amamos, porque nos aquece não a pele mas a alma; são aqueles que festejam a alegria só porque sim, não porque há calendário para festas; os que programam a Vida sabendo que o grande evento é o imprevisto, aquele que nos traz a novidade de ser feliz, sem tempo, nem medida.
Elas, aquelas pessoas que já um dia tocaram no ventre do Universo e são, por isso mesmo, verdadeiros prodígios, murmuram em cada passo que projectam no Universo, seja ele lento ou estugado, uma verdade que é irrefutável: a sua humanidade tocante.
Olhá-las nos olhos leva-nos a descobrirmo-nos como num enorme, num gigantesco espelho, onde, para além da nossa imagem, a do nosso corpo, vemos, ainda, a nossa luz e, ainda mais, a alma que trazemos: aquele último reduto onde nos acantonamos até de nós mesmos.
Descubro-me, sempre, inteira neste olhar: catita, com os olhos de descobrir Mundo, a viajar ainda mais pelos sonhos, sempre com a certeza de que esse é um barro de construir vidas.
E se viva sempre estive, a Vida hoje assalta-me qual pirata aportando em navio: assolando-me!
Os narcisos que tanto estimo hoje não são amarelos: são bebedeiras de sol; as palavras que leio nos livros, que quase acaricio, já não são palavras, são conversas truculentas que os gnomos, primos das fadas, mantêm comigo; as telas que me pintam - as memórias que me tecem - são agora translúcidas, iluminam-me, trazem-me luz ao coração, que agora irradia.
Tudo isto eles me vão doando, momento a momento, no pormenor do simples.
Descobrem-me.
E apupando dizem-me "és linda", minha "Zé Minhocas", fada Sininho, lindabelamorena, fada Musa.
Sabem que nada mais sou que eu. A mais simples de todos.



Simplicidade


Queria, queria
Ter a singeleza
Das vidas sem alma
E a lúcida calma
Da matéria presa.

Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe;

Ser igual em som,
Ser igual em graça
Ao pássaro leve,
Que esvoaça...

Tudo isso eu queria!
(Ser fraco é ser forte).
Queria viver
E depois morrer
Sem nunca aprender
A gostar da morte.   


Pedro Homem de Mello

   

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Neste Encontro de Almas

Ensinou o poeta, como Mestre, que ninguém é feliz sozinho.
E é mesmo como ele diz.
Desde o ventre materno aos demais ventres, ninhos e aconchegos que a Vida nos vai oferecendo, ninguém, nunca, está só.
Povoam-nos, para além das memórias, também todos os pedaços de quantos nos oferecem os seus sorrisos, as suas palavras quanto as suas dores e as suas raivas; mágoas até.
Vamo-nos construindo desta matéria soluvel, que são os amores e os desamores, sabendo que o perpétuo está sempre lá, ainda que meio ensombrado pela rasura do consumo dos dias e o frémito das noites e, também, quantas vezes, pelas horas mortas da dor.
E se somos sempre em mudança - e assim é Graças a Deus - há um cristal que está sempre incólume: tudo o que guardamos na Alma! A verdadeira arca do tesouro.
Remota e longa caminheira de Tempos e Tempos, a Alma carrega tudo o que amealhámos, o sagrado.
É a voz de um pai que, ao descer o último degrau junto da porta de entrada, sempre nos diz quanto gosta de nós, é o cheiro da terra molhada depois das primeiras chuvadas, no Outono, que nos fazem sentir o fim e o recomeço, é o aconchego da lareira abrasadora naquela cozinha tão grande como um mundo àparte onde começavam e acabavam todas as conversas da infancia mas, também, onde os meninos mais pequenos vieram a dar os primeiros passos.
É, antes de mais, a certeza presente de que todas as dores quanto as grandes alegrias têm sempre morada não só em nós mas, muito, muito mais, em todos aqueles que já mergulharam no nosso infinito e que connosco partilham a mesma pele.
É em todas as horas, e em cada momento, encontrarmos e, mais que sabermos, sentirmos que eu sou tu e que tu sou eu e, que é por isso que, quando digo "estou aqui!", eu estou mesmo aqui e que quando tu exclamas "preciso de ti", eu sei quanto tenho de aqui estar para te acolher.
Certo é, pois, que neste encontro de almas há um longo caminho, um caminho pródigo de enorme beleza.
Uma beleza onde cada qual mira o Mundo com olhos seus, fitando cada cor, o seu céu e a luz com a sua mirada, desbrabando a terra a seu modo.
Mas caminhos de lado a lado, onde de soslaio, e com um sorriso no rosto, sempre sabemos, que o chão que pisamos é o mesmo, o ar é de ambos e os sonhos sempre nossos.
E como que abençoados, retidos nesta confiança, que é a certeza de uma morada fora de nós, seguimos...       

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Os nossos amores

Não estamos sozinhos no Mundo: parece ser esta uma evidencia à la Palice. Mas nem sempre o é.
É certo que vivemos quase sempre a par, muita vezes em multidão; todavia tal não importa para que estejamos acompanhados.
Muitas. Tantas e tantas vezes, olhamos ao nosso redor e vemos porta-retratos em movimento: eles são os amantes que sorriem, é o pai e a mãe com os seus filhos, são os irmãos e amigos par a par.
Desses quantos não conseguem ser mais do que gente? Quantos ali estão porque não conseguem escapar à evidencia?
Muitos não representam mais do que um rosto para polaroid! Respondo-vos.
São aqueles que já não se conseguem emaranhar no sorriso do outro; efectivamente, deixaram de o conhecer.
Mas ali permanecem.
Não conseguem dizer adeus a quem foram, aquele outro eu que já foi andando, agora que cresceram; aquele eu que foi caminho a percorrer, mas que agora, é apenas caminho andado.
Sobretudo porque partir significa dizer-nos "parti um nó"! E saber que um outro nó ficará, para sempre, na nossa memória - a memória longa de um Homem que foi educado muito mais a tecer compromissos com o outro do que lealdades consigo mesmo, nem mesmo que desse compromisso com o outro provenha a deslealdade, a maior de todas, trair-se a si mesmo. E um Homem nem sempre consegue perdoar-se!
O novo é outra parte da equação: o romper da aurora é sempre incerto, nunca sabemos que madrigal virá. E o Homem tem medo do que não conhece.
Todavia há apenas uma forma para a Vida: desprendermo-nos do medo; pois só então, definitivamente, começamos a viver.
Sabendo, claro, que sofrer é parte dessa jornada: até porque um Homem que não sofre, ou que nunca sofreu, é um Homem despido de si, não tresanda da sua humanidade.
A sua virtude é a de saber que, não obstante o sofrimento, a Vida é um Caminho a seguir. Sempre.
E que nesse Caminho, passo a passo, avultam Almas com quem partilhamos luz: todos aqueles em quem nos conseguimos embaloiçar, com quem partilhamos os saberes indiziveis e com quem brindamos, mesmo ao insucesso: os nossos amores.
Sim! Porque os nossos amores são todos aqueles com quem, nem que seja um dia, soltámos uma gargalhada, aprendemos um poema, saboreamos um cacho de uvas sacado em movimento, encostámos o olhar num sonho e, por isso, nos ensinaram que nunca mais seremos iguais sem eles.



Pecado Original


Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!


Álvaro de Campos
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 2 de outubro de 2010

Marquei um encontro comigo

O Tempo é o mestre do Universo, dizem os sábios. Mas nós, que somos os terrenos, sabemos é, sobretudo, como ele é escasso.
Esta Vida grande e esparsa, multipla diria mesmo, é um convite permanente a uma fuga incessante: há tanto, mas tanto para fazer que é tão fácil esquecermo-nos de nós.
Hoje, e mesmo já ontem, o Homem é motivado ao sucesso: ter tudo, exibir-se com tudo e fazer todas as coisas - plena ambição!
E para isso importa que dê tudo, é quase um escravo de si mesmo - dorme pouco, quase não sonha e muitas vezes fá-lo com o uso das poções mágicas, que são os martelos em forma de comprimido; já quase não sabe comer, pois passou a devorar coisas, dada a voragem dos apetites infelizes; trabalha horas e horas sem fim, como se trabalhasse bem, mas não fá-lo a espaços e cada vez com menos dádiva; não se recria, vive, vive e torna a viver mas sem que a alegria entre no jogo, sem que a vida lhe toque por magia, pois está amorfo, está triste, desistiu mesmo; esqueceu-se de si, deixou de contemplar o seu templo, desapareceu o culto diário de se mirar e descobrir cada pouquinho de si, amando e amando mais aquilo que é, a sua singularidade.
O hoje é, antes de mais, um tempo de egoísmo, aquele em que o Homem tem medo de se dar ao outro, mas também o momento em que ele, o Homem, se vem esquecendo de se cultivar, de pesar cada um dos pouquinhos em que é tão diferente e tão unico, olvida cultivar a sua individualidade.
Há, por isso, tantas tribos: desde os que se enfeitam de forma arrasadora para poderem chocar, aos que partilham actividades para bradir a solidão até aos que se não olharmos bem, muito bem, nos fazem confundir se não estamos a ver a dobrar.
Funcionalizar o Homem, parece! Torná-lo uma porca da engrenagem... Tudo aquilo que devemos negar.
É alto o tributo a pagar pela diferença, mas urge que a cultivemos: a diferença e a singularidade que vive em cada um de nós.
Não ter medo, nunca. É este o ponto de partida. E depois palmilhar aquele Caminho, imenso, que conduz ao melhor de nós mesmos, quem somos.
Para tal é necessário enfeitarmos o nosso jardim, o jardim que temos em nós: nós mesmos.
Importa que olhemos o sol e que deixemos que nos cubra como um manto sem medo daquelas dores de cabeça estivais, importa mirar, isto é olhar com deveres de cuidado, cada pedacinho da estrada que pisamos sem que nunca temamos colocar mal o pé e perdê-lo.
Mas mais, mais, é imperativo que nos sentemos a contemplar as fibras que compõem a nossa Alma, que a tecem; saindo em busca de cada fio e da sua própria textura, para pudermos um dia saber quem não somos.
Agora mesmo marquei um encontro comigo: postei-me no silêncio, olho em redor no meio de toda esta luz, de tanta cor, vejo o recorte no horizonte e começo a tirar, uma a uma, as emoções que cabem em mim.
Sim, sei, sou livre; claro está, o Mundo é belo; pois há sempre uma luz que nos ilumina mais.
E, de repente, sou aquela menina, a de 2 anos, que sabe que existem princesas, fadas e anjos.
Os que agora mesmo, em desalinho, me pegam pela mão para brincarmos!