Se há certeza que hoje tenho é que, definitivamente, Deus não brinca aos dados com o Universo.
Mais do que nunca sei que a Vida é um caminho; caminho esse a ser percorrido dentro de nós, onde todas as passadas têm de ser o reflexo de uma atitude de total despojamento, de absoluta entrega e de uma humildade fransciscana.
É que, só dessa forma, teremos o prodigio de aceitar cada poça de água em que tropecemos e perceber que só com os pés molhados entendemos o conforto de ter os pés calçados (de preferencia num belissimos sapatos!!!), de olhar os lirios do campo e deixar que os olhos fiquem feridos de tanta beleza, mas, também, só desse modo conseguimos, em toda a plenitude, avaliar o brilho de cada estrela do firmamento.
É a atitude do peregrino!
Fazer da vida uma peregrinação é ter a capacidade de nos deixar levar pelo encantamento que encontramos em cada coisa, sabendo, mesmo em momentos mais dificeis, que chegaremos! E que nessa morada, a que almejamos, seja ela qual for, vamos respirar fundo e reencontrar o cheiro que temos preso no coração, desde a infancia.
É o voltar a casa!
E se é certo que Deus não brinca aos dados com o Universo, sei também que Ele nunca nos traça caminho.
O caminho que seguimos é fruto de nós mesmos: cada emoção, cada pensamento, cada desejo, cada medo são o terreno em que colocamos cada um dos nossos pés, momento a momento: o caminho ecoa quem somos!
É, por isso, que a felicidade ataca os justos, tal como os escreveu José Luis Borges, tão só porque eles nada querem para si, assim tudo encontrando!
E, passo a passo, momento a momento, encontramos o que nunca procurámos mas que sempre esteve no nosso desejo.
Sei, assim, que o meu sonho de menina, aquela que sempre serei, está já ali, ao dobrar da esquina: vamos casar em Paris, com o Sena em fundo, abraçar o meu amor na cúpula do Panteão, mirando a cidade que, depois juntos, lado a lado, vamos palmilhar, acabando por descobrir o nosso recanto.
A Vida escolhe-nos sempre quando nós a honramos, vivendo.
Os Justos
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, in "A Cifra".

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