Quando olho para o céu - e é quase sempre que não estou entre paredes - é raro ver, apenas, uma nuvem. Aquela nuvem que está ali, plantada no céu, sempre de passagem, nunca é apenas uma nuvem: ou é um barco à vela, ou um elefante ou, quem sabe, duas crianças em desatinada correria.
E, por mil vezes que olhe, aquela mesmíssima nuvem nunca é apenas uma nuvem e nunca é só aquilo que pareceu, é sempre algo mais.
Assim se passa com tudo na vida!
Não sei ser comedida para o alto do coração - se os pés vão, quase sempre, ficando bem assentes no chão, adensados na realidade que, a cada passo, melhor quero conhecer; certo é que o meu coração, a minha alma, a minha cabeça tem outra morada.
Moram, todos eles, juntos num só num mundo muito distante.
Um mundo que não sendo da fantasia é, quase sempre, o do sonho, o da ideia em movimento, o da roda gigante: um universo tão perto quanto longínquo, onde a realidade é a realidade, mas em que a realidade tem um sentido, um tónus em tudo diferente - uma nuvem é uma nuvem, mas nunca é só uma nuvem, ou é um barco à vela, ou um elefante ou mesmo duas crianças em desatinada correria.
Ou, quem sabe, tudo isso.
Mas nunca se pode partir para o sonho sem passaporte; ninguém é Dom Quixote sem Sancho Panza!
E se um Dom Quixote vou conseguindo ir sendo - e assim foi desde sempre! - é porque fieis escudeiros me têm acolitado nesta busca incessante da resposta, do sentido e do belo. Os meus Sancho Panza.
Sem eles, o territorio do sonho não era mais do que uma vertigem, um desatino, uma fuga sem hora, de onde nada traria: foram e são eles que me escutam nas longas viagens, mesmo quando sigo em silencio; são eles que preparam a vida que me aguarda quando volto do sonho; são eles, afinal, quem guarda os meus bens mais preciosos, deles cuidando, quando sigo em jornada pelo sonho.
Muitas vezes, mesmo, foram eles quem tomaram conta do meu sonho e de mim, para que nada se perdesse. Isto quando eu já quase não sabia sonhar!
E a sua fidelidade foi especialissima: foi leal.
Souberam honrar-se a si proprios, sendo quem são, crescendo em si e muito de si o dando a mim, nada esperando em troca que não sentir como é bom que eu sonhe e volte desse sonho e, mais uma vez, regresse ao "Mundo do Nariz no Ar".
O meu primeiro Sancho Panza, que o é desde sempre, é a minha mãe!
Uma mulher riquissima de todos os recursos, que teve o condão da praticabilidade e, por isso, me conduziu, até hoje, a um Templo, de que é guardiã, o Templo da Vida, onde me mostrou todos os seus recantos e onde volta sempre, incansavelmente, para tomar o meu lugar quando parto em descoberta. Por isso é a mãe de todos nós; a amurada onde todos aportamos quando o mar está revolto.
Outra Sancho foi a nossa querida Bábá: aquela mulher fantástica que pegou ao colo do meu menino quando ele era o bébé de três meses e só deixou de nos dar colo, a todos nós três, passados mais de oito anos. Também, ela, teve o condão de se emprestar aos meus sonhos e de me oferecer um pouco da sua vida.
Hoje, lado a lado, tenho um Sancho muito especial: uma senhora de coração de elastico, qual contorcionista, que o coloca à frente do meu para que as rajadas do vento norte, os que fustigam os sonhos, não logrem soprar os que quero ir viver: é a nossa Dona Emilia.
É a confidente, é a assistente de produção de cada sonho, é a bonomia de Sancho.
E como para mim o sonho comando tudo, mas tudo mesmo, o que vivo, outros Sancho foram cuidando da crueza da vida para me oferecerem a beleza do sonho da descoberta, da busca.
Foi, nos ultimos cinco anos, a Ana Paula quem cuidou de me proteger de todos os embates da vida comezinha do dia-a-dia, sendo os meus olhos e curando dos "meus outros bens preciosos" sempre que partia à descoberta. E foi, sempre, mas sempre mesmo, de uma estonteante realidade mas sem nunca ferir o meu sonho!
A todas elas pertencem, também, uma parte de cada um dos meus sonhos, porque deles são eternas depositárias, sonhos e realidade que honraram, honram e, sei, que honrarão, de uma forma belíssima.
Para sempre farei a rota dos "moinhos de vento"; para sempre olharei as nuvens, sem cessar, e descobrirei as suas multiplas formas e, sem duvidas, sei que nunca o farei só: terei, sempre e incansavelmente a meu lado, Sancho Panza. As minhas Sancho Panza!

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