Todos nascemos de um ventre.
O lugar mais denso, aprazivel e calmo que acalentamos prolongar para sempre, nem que seja na memória.
Mas, ao longo do tempo que vivemos, vamos encontrando outros ventres, verdadeiros ninhos, que, também, eles, nos trazem um profundo aconchego.
Eu tenho um pai que é um prodigio - tão magnifico como ele, apenas, conheço o pai de cada um dos meus filhos.
Os seus braços acalentaram-me, desde sempre e até hoje, como se chegassem até ao infinito: são eles, em si mesmo, um ventre.
São braços que nascem do coração, um coração audaz, livre e leal, e que sempre se estenderam até onde eu sempre necessitei que me acolhessem.
Na infancia foram os braços-baloiço, que me levavam ao céu; na adolescencia foram mais os braços que rasgaram os horizontes para que eu pudesse voar sem mácula e, quando mulher, foram os braços que pegaram em mim - mesmo sem pegar - quando eu já não podia andar.
Mas a força vital foi sempre do coração.
Um coração inteiro: não só meu, mas sempre só dele, dividido pelo mundo.
Sabíamente, mesmo sem o saber, sempre disse que "quanto mais dá, mais tem". E sempre foi assim e sempre assim é!
Era do seu coração que me era servido, em plena madrugada, o chá de camomila que me aquecia nas longas madrugadas de estudo, como que a plagiar as brincadeiras de fim-de-tarde que, em menina, ele dividia comigo.
Sempre fomos cumplices e sempre dividimos, sobretudo num silencio muito prenhe, as vastas, as enormes emoções, com que a vida me brindou.
E, ainda mais agora, quando eu já sou um esteio, os seus braços são, cada vez mais, verdadeiros guias. Mas, também, mais ternos.
É ele, meu pai, ainda hoje, quem apanha os primeiros figos da mais frondosa das nossas figueiras e me oferece como mais um mimo.
Agora que sou mulher, agora que há uma menina e um menino em casa, são, ainda, para mim os figos temporãs!
Que poderá o meu coração sentir? Que caudal pode este amor seguir?
Não sei!
Apenas sinto que o amor não pára de crescer no meu coração como os seus braços nunca deixaram de se esticarem para me alcançar. E isso bastará?
Apenas sei que ele é o jade do meu coração, sinto que habita em mim como todos os sonhos que viverei e nunca duvidei que, quando for uma estrela, a sua será a mais intensa das luzes a ensaiar o meu caminho.
Se nunca estremeci de medo, se sou audaz, se acredito, ainda, que o Mundo é um lugar de gente boa e a Vida um momento unico, tudo isso foi porque o meu pai me ensinou. Com a sua dolencia de amor.
Depois de tudo fica o que sempre soube - é que afinal os pais, também, têm ventre!

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