Nascido naquele pequeno lago, perto de muito pouco, Niki tinha o prodigio dos pequenos: tinha sabido acolher na beleza da sua cor tudo aquilo que só aquele imenso céu pode emprestar.
Mas era a sua delicadeza que mostrava bem que é na quietude que se fabricam as almas. Podia parecer, para muitos, tão-só um nenunfar, mas não era.
Era uma menina triste que, um dia, tinha sonhado ser uma flor.
Nicoleta era o seu nome.
Um nome que suava a flor. Mas agreste era a vida daquela flor.
Nicoleta tinha nascido num lar cheio de pão, onde o queijo e as azeitonas eram abundantes e o leite de cabra, um doce acre, como toda a sua curta vida.
Mas apenas os manjares abundavam!
Era, juntamente com os seus cinco irmãos, a mais velha dos filhos de um homem cuja rudeza da terra se tinha semeado no coração; e a sua mãe partira, pois só Deus tem os que mais ama.
Nicoleta tinha, assim, o mister de viver entre o jogo da cabra cega e a ordenha das cabras, a sopa quente para o jantar e o ultimo beijo que só uma mãe pode dar.
Com 12 anos, Nicoleta sabia que coser botões na camisa de um homem era muito mais do que passar linha pelos buracos de uma amalgama de plastico; era, antes de mais, saber que ele tem cheiro. E esse terror, o horror da carne viva, só se pode superar pelo sonho.
Desde que completara 8 anos, Nicoleta disse adeus ao banco da escola da Professora Marinela.
Aquela mulher, a unica que a havia inspirado a olhar para as letras e para os numeros, não como um emarado sem sentido, mas como o unico caminho para a liberdade que tanto desejava.
Mas, ainda que sem a sua vontade - como se a sua vontade fosse algo a ter em conta - teve de dizer adeus; mesmo sem saber mais do que escrever o seu nome, contar o dinheiro e reconhecer as contas (mas tudo o que era necessario para ser a mulher da casa).
Mas nesse dia, que foi o primeiro, foi também o seu ultimo dia.
Nicoleta, que da sua mãe conhecia apenas o pequeno retrato, o que sobrava no toucador do quarto do pai, nesse dia entendeu que era seu o lugar que ia tomar. E não era só na cozinha: a fazer a sopa, o panni ou a pasta.
Algo de profundamente tragico seria a comemoração daquele dia.
Mas hoje era feliz!
Era o nenunfar mais bonito da planicie onde o sol habita por paixão.
Ali podia ouvir o chilrear de todos os passaros nas longas auroras, quer sejam frias, quer sejam mornas, tal qual as da Sicilia.
Mas, melhor, muito melhor, podia - em silencio - partilhar os risos, os saltos, as brincadeiras das crianças felizes.
As crianças que têm pais a cujo pescoço se abraçam, que não precisam inventar amigos porque com eles vivem cada um daqueles eternos momentos que se respiram na memoria do futuro.
Ali a alegria era um substantivo!
E Niki, apesar de ser uma flor, era a mais bela alma daquele especial deserto.
Ter oito anos e deixar de sentir a pureza podia ter morto Nicoleta.
Aquele dia tinha sido o principio da crueza dos seus dias:
- de manhã, ainda o sol não se adivinhava, tinha de cuidar do avio que o seu pai levaria para os montes, de onde por milagre, apenas voltaria, quando o dia já se fechava;
- logo depois, tinha que levantar, um a um, todos os seus irmãos, dar-lhes de comer e ensinar-lhes o que o pai lhes negava dia após dia;
- a seguir era a mulher da casa: limpar, lavar, brunir e coser.
Como era facil tudo aquilo se não existisse noite; era a noite que tornava o silencio do dia tão magnifico!
Nicoleta nem saudades já tinha das brincadeiras do elastico, do esconde-esconde, nem mesmo da pequena boneca de trapos - a unica boneca que fora sua, e que agora, que já era mulher, dera a Tessa, à sua pequena Tessa.
A mais pequena de todos os seus irmãos, aquela que queria, mais do que tudo, proteger das garras do urso das montanhas.
Mas, agora, que era uma flor, a mais bela das flores, a que nasce com o sol e que com ele se recolhe - é bela demais para um banho de luar - Niki olvidava que outra vida tivesse existido, porque agora, para si, aquele era o caminho.
Encontrara o seu lugar no mundo. E quantas são as flores neste mundo?

Adorei, comovente mas muito belo...parabéns.
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