domingo, 29 de agosto de 2010

Da Intensidade da Luz

O Homem que vive de frente para o Mundo tem a gratidão de encontrar a natureza.
Sempre me tive como apenas, e apenas só mais um dos elementos que compõem o Mundo. Com o mesmíssimo lugar que uma pedra, a hera que cobre as paredes de um muro ou mesmo o riacho que corre pelos caminhos mais recônditos da paisagem.
E é, precisamente, por me sentir um pedaço deste universo, e apenas mais um pedaço, que trago nos ombros a marca da liberdade: sentirmo-nos de igual valia à de um seixo permite-nos entender, com toda a verdade, que o Mundo precisa de nós, como precisa de tudo o resto, à sua propria medida.
Por isso, sabendo que é por ser quem sou que o Mundo precisa de mim, revelo-me em plena liberdade.
Sou eu quem sou!
Neste carrossel que é a Vida, gerida pelo Tempo, esse mestre, sei que tenho de ser quem sou!
Assim nada temo: sei que tudo o que faço é pendulo do universo.
Sei que se amo muito e sou, ainda, mais feliz com o homem que amo é porque este é um Amor maior; sei que se olho os girassois à luz do sol e me comovo é porque tanta beleza me estremece o coração; sei que se este cheiro que recolho no restolho seco me apazigua é porque o resgatei da memória da menina de 7 anos que ali, eu mesma, já o cheirava; sei que se choro com as dores que a "minha irmã mais nova" sente é porque ela é uma parte de mim!
Com tudo isto recolho, todos os dias, a lição de que é por sermos quem somos que o Mundo é tão belo e de que é na prodigalidade do Amor que nos encontramos mais nós, tão-só porque tudo nos é devolvido como dádiva.
Assim foi quando, ao banhar-me de luz pela manhã, o sol me incandeou: o teu Amor pleno, eu sei; ainda mais pujante, muito mais, que todo o Amor que te tenho e coloquei na intensidade desta luz tão bela, a de uma manhã de Verão tórrido, que até te fere o olhar.  

sábado, 28 de agosto de 2010

O Eco

Se há certeza que hoje tenho é que, definitivamente, Deus não brinca aos dados com o Universo.
Mais do que nunca sei que a Vida é um caminho; caminho esse a ser percorrido dentro de nós, onde todas as passadas têm de ser o reflexo de uma atitude de total despojamento, de absoluta entrega e de uma humildade fransciscana.
É que, só dessa forma, teremos o prodigio de aceitar cada poça de água em que tropecemos e perceber que só com os pés molhados entendemos o conforto de ter os pés calçados (de preferencia num belissimos sapatos!!!), de olhar os lirios do campo e deixar que os olhos fiquem feridos de tanta beleza, mas, também, só desse modo conseguimos, em toda a plenitude, avaliar o brilho de cada estrela do firmamento.
É a atitude do peregrino!
Fazer da vida uma peregrinação é ter a capacidade de nos deixar levar pelo encantamento que encontramos em cada coisa, sabendo, mesmo em momentos mais dificeis, que chegaremos! E que nessa morada, a que almejamos, seja ela qual for, vamos respirar fundo e reencontrar o cheiro que temos preso no coração, desde a infancia.
É o voltar a casa!
E se é certo que Deus não brinca aos dados com o Universo, sei também que Ele nunca nos traça caminho.
O caminho que seguimos é fruto de nós mesmos: cada emoção, cada pensamento, cada desejo, cada medo são o terreno em que colocamos cada um dos nossos pés, momento a momento: o caminho ecoa quem somos!
É, por isso, que a felicidade ataca os justos, tal como os escreveu José Luis Borges, tão só porque eles nada querem para si, assim tudo encontrando!
E, passo a passo, momento a momento, encontramos o que nunca procurámos mas que sempre esteve no nosso desejo.
Sei, assim, que o meu sonho de menina, aquela que sempre serei, está já ali, ao dobrar da esquina: vamos casar em Paris, com o Sena em fundo, abraçar o meu amor na cúpula do Panteão, mirando a cidade que, depois juntos, lado a lado, vamos palmilhar, acabando por descobrir o nosso recanto.
A Vida escolhe-nos sempre quando nós a honramos, vivendo.



Os Justos


Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra".

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Mundo É Redondo

Para tentar o impossivel, ao longo dos tempos e tempos, o Homem foi criando uma mole de regras, convenções, linhas, atavios, passos e contrapassos!
Dá-lhe segurança, uma aparente harmonia e, pela acção do que é repetido, transmite-lhe a crença de que o seu mundo vai ficando um pouco mais perfeito.
Para isso foi criando as élites para, supostamente, pensarem; desenhou as fardas para compôr alguns dos que mandam; determinou que, quando certos afectos se encontram, se estabeleçam contratos e, melhor, ainda melhor, determinou que certos indivíduos - por serem quem são, por fazerem o que fazem ou terem o que têm ou aparentam ter - assumissem comportamentos conformes a um especial estatuto; tratando-os, assim, como espécies diversas dentro do mesmo género.
Só que o Mundo é redondo e o Homem composto de mudança!
É por isso, apenas por isso, que uma criança é concebida quase no impossivel, que o sol nasce todos os dias, que as aves voam bem alto mesmo quando troveja ou até mesmo um sorriso volta a brilhar num rosto fechado, iluminando-lhe o coração.
Tudo milagres, como inopinadamente defendia Einstein, que de forma prosaica jurava que apenas havia duas formas de olhar a vida: como tudo sendo um milagre ou nada sendo um milagre!
Estou com ele, naquela que entendo ser a melhor das suas criações: a Vida é mesmo uma soma de belíssimos milagres.
E quem pode dizer outra coisa?
Quantas vezes é que o sol deixou de nascer?
Qual foi o dia em que deixámos de encontrar um sorriso no rosto de uma criança?
Quantas flores a natureza deixou de nos ofereceu?
E quando foi que não encontrámos um Homem bom?
Momento a momento, em todos os lugares do Mundo, a Vida escolhe a quem brindar com estes milagres!
E os milagres são como magia tecida por mãos laboriosas de fadas: nunca se sabe o que acontece, como vai acontecer e a quem vai acontecer: esse é o prodigio do mundo do sonho - o imprevisivel!
Por isso só há uma forma de viver; é estar vivo.
Entender que a vida é muito, mas muito mais, que um tique-taque de coração, que é um caminho a começar ténue, onde se segue ora vacilante, ora destemido, onde muitas vezes caíremos, algumas com mazelas graves, mas onde teremos o privilégio de colocar a nossa mão como em barro.
Mas a Vida é, também, mudança, imprevisto, como que um sopro do Universo que deixa o Homem embebido de mudança! Por isso deixem-se levar!
E digo-vos eu, porque sei, que há sopros que nos mudam para sempre: voltamos a sorrir, o sono desaparece, as horas escoam-se sem parar e, de repente, o caminho começa a ter mais luz!
Tal é que, se num destes dias, uma bela flor nascer por entre o lagedo de cimento, um desconhecido, desculpando-se de engano, ao pedir-lhe desculpa a galantear com um "é muito bonita" ou no meio de um lago de uma planicie árida encontrar o mais belo nenúfar de que tem memória, não diga que foi coincidência! Tão-só porque não há coincidências, há torvelinhos de fadas a que chamo milagres.
Porque o Mundo é redondo. Perfeito!   

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Jóias de Verdade

Nestes tempos de "montras mundanas", onde ao invés do que somos, o nosso "target" é medido por tudo aquilo que podemos exibir - e, desse modo, mostrar ao Mundo, a enorme importancia a que estamos votados!!! - vivo, a cada dia que passa, o enorme escolho de conseguir distinguir o falso do verdadeiro!
Este "drama", que penso não ser só meu, é, claro, acentuado em mim, porque sempre serei a mais prosaica das inocentes, posto que quando a ultima se tiver rendido, ainda eu cá estarei sem ter dado conta...
É o bom custo da opção de ser feliz, cultivando a Verdade, pois a Verdade é sempre, ela mesma, inocente.
E, é mesmo por isso, que a duvida se instala sempre; é uma constante com que vivo.
Nunca sei - mas penso que posso falar em nós - se o cabelo da senhora que está na fila da caixa do supermercado é mesmo louro ou é a ultima mistificação que ela pediu ao cabeleireiro para iludir a idade; como nunca hei-de conseguir descortinar se o decote mais rechonchudo da colega, logo depois das férias, é fruto dos multiplos gelados, será bébé a caminho ou foi resultado de um desvio por um dos famosos consultórios dos cirurgiões mágicos/plasticos tão em voga.
Mas isso não interessa nada! Mas não interessa mesmo; até porque quem sou eu, quem somos nós, para tomar em tino a cor do cabelo ou o tamanho do decote que não é nosso!
Já não é assim quando se fala de afectos! Dos afectos que nos suscitam, que nos "dão", que de nós querem levar!
Esse, sim, é um momento em que o falso e o verdadeiro não são um teste de resposta de modelo aleatório, nem a que se possa responder como calhar.
Pois essa é uma resposta que poderá questionar-nos para sempre!
No hoje vivemos o tempo da diversidade - a par do utilitarismo, do consumismo e da necessidade, encontramos, claro, o Amor.
Encontramos comummente a Pessoa que se chega, dos mais diversos modos, a uma outra para que dela possa absorver tudo o que necessita: dinheiro, carreira, status, como se estivesse num corredor de bricolage e daí fosse retirando tudo o que precisa para construir uma Vida melhor. O afecto não conta e o melhor mesmo é que não exista, pois desatrapalha!
Há, ainda, o Homem consumista, o que vive de galho em galho, sem nunca querer pousar, pois nunca o conseguirá. Afinal ele não pode ver o que tem dentro de si próprio e, por isso, foge de si proprio, predando o afecto de outrem, que consome rapidamente, para logo, logo, começar tudo de novo.
A necessidade é outro dos motores da aproximação que, nestes tempos, vigora entre os seres humanos: a solidão mata! O estar só é o motivo desencadeador de uma busca insana, desgarrada e quase insolente de companhia, alguém (tudo o que mexa!!!) que nos faça sentir menos mal: também, afinal, não há som mais ensurdecedor do que o silencio vazio.
Ao lado de toda esta fancaria, o peschispeque das emoções, há uma verdadeira jóia: o Amor.
O que surge sem hora marcada, não tem prazo de validade, não tem alvo à vista e, antes de tudo, é um sinal. Um sinal de profundo e emocionado bem-querer é, antes de mais, sinal de querer bem por si proprio: pois só logra amar quem se ama.
Essa joia de verdade, que está guardada no mais recondito de cada um de nós, e muitas vezes teima em se deixar mostrar, precisa de um ninho, de ser acolhida e depois, muito, mas muito, acarinhada.
Como todas as joias, tem que ser cuidada, bem guardada e, ainda de mais, tomada como uma verdadeira riqueza e afortunados os que a detenham.
Conheço quem ama como quem detém uma joia: e testemunho como é belo assistir à troca da luz dos seus olhares, tenha passado o tempo que passou; assim como é magnifico entender que os seus corpos, os seus corações e as suas almas são já uma dádiva que ambos se fizeram e, por isso, só por isso, nada lhes é estranho e tudo lhes pertence.
Para mim, hoje, algo é certo: o amealhar de boas emoções, como a poupança de uma vida, traz-nos sempre uma joia de verdade: basta ter a sabedoria da espera do estremecimento e aprender a escrutinar a verdade das jóias.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Da Realidade ao Sonho e do Sonho À Realidade: a Roda Gigante

Quando olho para o céu - e é quase sempre que não estou entre paredes - é raro ver, apenas, uma nuvem. Aquela nuvem que está ali, plantada no céu, sempre de passagem, nunca é apenas uma nuvem: ou é um barco à vela, ou um elefante ou, quem sabe, duas crianças em desatinada correria.
E, por mil vezes que olhe, aquela mesmíssima nuvem nunca é apenas uma nuvem e nunca é só aquilo que pareceu, é sempre algo mais.
Assim se passa com tudo na vida!
Não sei ser comedida para o alto do coração - se os pés vão, quase sempre, ficando bem assentes no chão, adensados na realidade que, a cada passo, melhor quero conhecer; certo é que o meu coração, a minha alma, a minha cabeça tem outra morada.
Moram, todos eles, juntos num só num mundo muito distante.
Um mundo que não sendo da fantasia é, quase sempre, o do sonho, o da ideia em movimento, o da roda gigante: um universo tão perto quanto longínquo, onde a realidade é a realidade, mas em que a realidade tem um sentido, um tónus em tudo diferente - uma nuvem é uma nuvem, mas nunca é só uma nuvem, ou é um barco à vela, ou um elefante ou mesmo duas crianças em desatinada correria.
Ou, quem sabe, tudo isso.
Mas nunca se pode partir para o sonho sem passaporte; ninguém é Dom Quixote sem Sancho Panza!
E se um Dom Quixote vou conseguindo ir sendo - e assim foi desde sempre! - é porque fieis escudeiros me têm acolitado nesta busca incessante da resposta, do sentido e do belo. Os meus Sancho Panza.
Sem eles, o territorio do sonho não era mais do que uma vertigem, um desatino, uma fuga sem hora, de onde nada traria: foram e são eles que me escutam nas longas viagens, mesmo quando sigo em silencio; são eles que preparam a vida que me aguarda quando volto do sonho; são eles, afinal, quem guarda os meus bens mais preciosos, deles cuidando, quando sigo em jornada pelo sonho.
Muitas vezes, mesmo, foram eles quem tomaram conta do meu sonho e de mim, para que nada se perdesse. Isto quando eu já quase não sabia sonhar!
E a sua fidelidade foi especialissima: foi leal.
Souberam honrar-se a si proprios, sendo quem são, crescendo em si e muito de si o dando a mim, nada esperando em troca que não sentir como é bom que eu sonhe e volte desse sonho e, mais uma vez, regresse ao "Mundo do Nariz no Ar".
O meu primeiro Sancho Panza, que o é desde sempre, é a minha mãe!
Uma mulher riquissima de todos os recursos, que teve o condão da praticabilidade e, por isso, me conduziu, até hoje, a um Templo, de que é guardiã, o Templo da Vida, onde me mostrou todos os seus recantos e onde volta sempre, incansavelmente, para tomar o meu lugar quando parto em descoberta. Por isso é a mãe de todos nós; a amurada onde todos aportamos quando o mar está revolto.
Outra Sancho foi a nossa querida Bábá: aquela mulher fantástica que pegou ao colo do meu menino quando ele era o bébé de três meses e só deixou de nos dar colo, a todos nós três, passados mais de oito anos. Também, ela, teve o condão de se emprestar aos meus sonhos e de me oferecer um pouco da sua vida.
Hoje, lado a lado, tenho um Sancho muito especial: uma senhora de coração de elastico, qual contorcionista, que o coloca à frente do meu para que as rajadas do vento norte, os que fustigam os sonhos, não logrem soprar os que quero ir viver: é a nossa Dona Emilia.
É a confidente, é a assistente de produção de cada sonho, é a bonomia de Sancho.
E como para mim o sonho comando tudo, mas tudo mesmo, o que vivo, outros Sancho foram cuidando da crueza da vida para me oferecerem a beleza do sonho da descoberta, da busca.
Foi, nos ultimos cinco anos, a Ana Paula quem cuidou de me proteger de todos os embates da vida comezinha do dia-a-dia, sendo os meus olhos e curando dos "meus outros bens preciosos" sempre que partia à descoberta. E foi, sempre, mas sempre mesmo, de uma estonteante realidade mas sem nunca ferir o meu sonho!
A todas elas pertencem, também, uma parte de cada um dos meus sonhos, porque deles são eternas depositárias, sonhos e realidade que honraram, honram e, sei, que honrarão, de uma forma belíssima.
Para sempre farei a rota dos "moinhos de vento"; para sempre olharei as nuvens, sem cessar, e descobrirei as suas multiplas formas e, sem duvidas, sei que nunca o farei só: terei, sempre e incansavelmente a meu lado, Sancho Panza. As minhas Sancho Panza!

Do Preconceito do Amor

Ao longos dos dias que já fui vivendo encontrei gente para quem é suposto que o Amor seja uma condição ditada por não sei quantas condições...
O certo é:
- que amemos os nossos filhos, então, afinal, eles não são os nossos filhos?
- que haja amor aos nossos pais, pois eles são os nossos pais;
- que se goste da mulher ou da companheira (pois há ainda gente para quem a distinção é vital, nomeadamente por razões de pertença, tanto da pessoa como dos bens!!!) afinal sempre é com quem vão vivendo e, algumas vezes, têm os filhos!
- que, por vezes, se tenha algum afecto (mas apenas afecto, porque amor faz perigar o papel "sacro-santo" dos pais) pelos avós, porque até eles vão aparecendo, de vez em quando!
Graças a Deus, a minha escola do Amor é das melhores e, com garbo, me orgulho de afirmar que ali leccionam dos melhores - pois ainda me assumo como aprendiz, uma eterna e orgulhosa aprendiz, razão porque do pouco, muito pouco que sei, avulta que o que mais importante que nos liga, não são os laços do sangue, mas os laços do Amor.
E estes não se escolhem, escolhem-nos!
A natureza (ou eu escolhi, ou Deus ofereceu-me, ainda não sei bem!!!) uma mãe e um pai que são uma benção e, é por isso, que os amo de uma forma desgarrada. Mas por isso.
Mas o Amor ofereceu-me uma outra mãe e um outro pai, que, de uma diferente forma, cuidaram de mim e me ensinaram coisas tão belas que, todos os dias, quando olho o céu estrelado, sei que eles brilham para mim, pois já estão longe.
Agora mesmo, faz pouco tempo, o Amor quis beneficiar-me com aquele que eu digo, a brincar, que é o meu pai, entre o do Céu e o da Terra.
Um outro pai, que me ensina a pensar o Amor e a entender os designios da Vida; um Mestre, o meu Mestre, portanto.
Do sangue vieram, também, os meus filhos! Mas não é pelo sangue que os amo.
Amo-os? Já não sei se os amo, se os adoro, se me misturo com eles!
Sei que, cada dia que passa, há uma mescla de emoções que nos enreda, que nos torna mais juntos, que faz prespassar um sentir que não tem nome, mas que já não é só Amor.
Mas não é pelo sangue que os amo. É pelo encontro da emoção entre o tanto que eles me dão e aquele muito que eu lhes pretendo mostrar! É pelo sentir que são os meus meninos, embora saiba que nunca o serão, porque apenas eu sou a mãe deles. Eles são gaivotas à solta pelo firmamento em voo rasante!
Mas se o ventre apenas me ofereceu o Pedro e a Maria, o Amor vem-me oferecendo muito a quem amar!
E é, por isso, que me preocupo se a Joaninha está bem e o meu coração bate mais quando ouço "Olá tia Mizé"; por isso quis saber como foi o primeiro dia de escola a "sério" da Leonor; é só por isso que tanto me agrada saber como é bem sucedido o Miguel!
É, também, por esse fio invisivel que fico muito feliz quando, olhando de revés, vejo a Margarida feliz porque se está a divertir num dos bailes onde, como eu, tanto gosta de dançar; é, por esse mesmo fio, que ao longe, me lembro daquele "menino grande" e me interrogo "o que poderia fazer pelo Luis?".
E se a natureza não me deu irmãos, sou a morgada mais acompanhada que conheço!
Os amigos - aquela tribo maravilhosa que vem sempre comigo, esteja eu onde estiver - são a prole que o Amor colocou ao meu lado nesta vida tão desafiante.
Foi e é com eles que cresci e sigo em frente, todos os dias, dia após dia.
São eles que peneiram o que de melhor a vida, o mundo e as pessoas me podem oferecer e muitas vezes, tantas vezes, são o escudo que me protege. Muitas vezes esquecendo que foi no desolhado da vida que eu me fiz quem sou.
E, é sempre neles, que me revejo: no branco dos seus olhos.
Por isso, quase sempre, ao acordar me lembro da Ana e dos desafios que tem a cumprir, do João e da sua bonomia, da minha Anita e da sua familia perfeita, do seu (e um pouco meu, também) João, do Zeca e das suas viagens, do Carlitos e das suas eternas dores, da João e das tremendas saudades que lhe tenho, do João Pedro e do dia em que vou voltar a revê-lo, do outro Pedro, lá longe e dos seus imensos, enormes desafios, do Carlos e da busca incessante de si proprio, da Teresa e do Arnaldo, as pessoas mais aconchegantes que conheço. Mas, sempre, da Rita e da paz que teima em não chegar e agora da Maria, a mais recente ocupante desta viagem. E está lá, sempre, a Elina. A grande timoneira!
E, sei, que é com eles que vou estar quando vier a chuva e o frio apertar, como é com eles que divido o tórrido sol do Verão; pois só com eles, todas as estações desta vida têm uma cor mais viva.
É, por tudo isto, que sei que o Amor não tem lugar marcado e, por sorte, tem sempre lugar para mais um. Basta que saiba vivê-lo!




 

domingo, 22 de agosto de 2010

Reencontros

Há quem tenha o prodígio de poder viver mais do que uma vida: eu conto-me entre esses eleitos.
Não porque tenha algo de especial (e não temos todos!?) mas porque a vida me escolheu.
Nesta nova vida que inaugurei, faz já um tempo, tenho tido a alegria, a ventura, a tremenda felicidade de seguir jornada com velha "gente" que fui reencontrando.
Não que estivessem perdidos, não, porque os seus pedaços estavam contidos em mim; só que numa sombra tão longínqua que mais pareciam pequenos poloroids, a preto e branco e em papel mate, que muitas vezes me faziam desconfiar, mesmo, se realmente tudo não passara de um belo sonho.
Hoje sei que sim!
Foi tudo um belo sonho, foram pedaços de sonhos muito bonitos que fomos partilhando, no dia-a-dia.
Eu e eles, eu e os amigos que a vida me trouxe de novo.
Têm sido momentos de emoção comovida mas, tanto mais, de dádiva partilhada - fui como pegar no cordel da vida, segurá-lo bem, agora juntos, e começar a desenrolá-lo, dividindo um sorriso, às vezes lagrimas, muitas vezes festa, outras passeio, alguns almoços e jantares, milhentos telefonemas sem fim; mas, sobretudo, cumplicidade.
Antes e depois de tudo, um amor fino, acolhedor, íntimo e de braços abertos!
E, se olhar este novo retrato de vida é consolador, desculpem-me, meus queridos, o melhor foi o que descobri de mim.
É verdade.
O melhor do reencontro é sempre o que resgatamos de nós e que já nem adivinhávamos ser: e eu encontrei jardas e jardas de mim neste encontro da memória, nesta onda de abraços, nesta miscelânia de almas.
Soube-me mais minha, mas, antes de tudo, senti, que nunca o fui.
Fica uma certeza, que é, antes de mais, um dogma: amo-me; mas amo-me muito mais porque todos vós estão em mim e hoje somos uma meada.

sábado, 21 de agosto de 2010

O teu Caminho

Nunca entendi que a felicidade, a alegria, ou até o bem-estar de cada um de nós pudesse estar contido na vida dos outros.
Ainda que eles sejam as pessoas que amamos.
É certo, é verdade, que a teia de emoções que nos liga, por vezes, flanqueia, de certo modo, o que vamos sentido.
Parece, assim, à primeira vista, que o espaço de felicidade de cada um de nós está, irremediavelmente, traçado pelas linhas escritas com a vida dos que amamos.
E vai, desgraçadamente, sendo.
Mas não é! Não terá de ser!
Quem és tu?
Parece-me ser a pergunta primordial, a questão central, para que possamos, em tempo útil, nunca "perder o pé" na vida que vamos vivendo.
Responder-lhe é uma tarefa tão árdua quanto urgente.
E quem és tu?
Sabe-lo? Vive-lo? Sente-lo?
Já te sentiste, no meio do vazio, e te miraste, olhando-te de frente, sem medo do que encontras?
Já esqueceste tudo aquilo que aprendeste, tudo aquilo que te foram ensinando, tudo aquilo que foste achando ao longo do teu percurso e amealhando?
Já procuraste todos os nós, todos os laços que te asfixiam e te paralisam e os preconceitos em que balizas a tua existencia para justificares o que vais fazendo, mesmo sem sentires?
Já viste o que "guardas" no fundo do bolso da tua existência e que já nem tem sentido?
Fá-lo!
Fá-lo com urgência.
E perceberás que não ficas pedra sobre pedra, que deixarás de saber até "andar" tendo que aprender tudo, mas mesmo tudo, de novo, ficando o horizonte reduzido ao dia que vives.
Mas viverás o prodígio da verdade e de nasceres de novo, fazendo-te a ti próprio: livre e liberto, sem mácula, nem preconceito: Inteiro!
Entenderás, nesse momento de uma paz imensa, transbordante mesmo, que tu és um Caminho, o teu Caminho; que podes ser quem tu és e que nunca mais, ninguém ou qualquer contingência do mundo, podem tolher-te.
Viverás, então, como Fernão Capelo Gaivota: sem medo, sem ira e sem dor.
Afinal tudo aquilo que te separava da felicidade.









sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Do Chá de Camomila aos Figos

Todos nascemos de um ventre.
O lugar mais denso, aprazivel e calmo que acalentamos prolongar para sempre, nem que seja na memória.
Mas, ao longo do tempo que vivemos, vamos encontrando outros ventres, verdadeiros ninhos, que, também, eles, nos trazem um profundo aconchego.
Eu tenho um pai que é um prodigio - tão magnifico como ele, apenas, conheço o pai de cada um dos meus filhos.
Os seus braços acalentaram-me, desde sempre e até hoje, como se chegassem até ao infinito: são eles, em si mesmo, um ventre.
São braços que nascem do coração, um coração audaz, livre e leal, e que sempre se estenderam até onde eu sempre necessitei que me acolhessem.
Na infancia foram os braços-baloiço, que me levavam ao céu; na adolescencia foram mais os braços que rasgaram os horizontes para que eu pudesse voar sem mácula e, quando mulher, foram os braços que pegaram em mim - mesmo sem pegar - quando eu já não podia andar.
Mas a força vital foi sempre do coração.
Um coração inteiro: não só meu, mas sempre só dele, dividido pelo mundo.
Sabíamente, mesmo sem o saber, sempre disse que "quanto mais dá, mais tem". E sempre foi assim e sempre assim é!
Era do seu coração que me era servido, em plena madrugada, o chá de camomila que me aquecia nas longas madrugadas de estudo, como que a plagiar as brincadeiras de fim-de-tarde que, em menina, ele dividia comigo.
Sempre fomos cumplices e sempre dividimos, sobretudo num silencio muito prenhe, as vastas, as enormes emoções, com que a vida me brindou.
E, ainda mais agora, quando eu já sou um esteio, os seus braços são, cada vez mais, verdadeiros guias. Mas, também, mais ternos.
É ele, meu pai, ainda hoje, quem apanha os primeiros figos da mais frondosa das nossas figueiras e me oferece como mais um mimo.
Agora que sou mulher, agora que há uma menina e um menino em casa, são, ainda, para mim os figos temporãs!
Que poderá o meu coração sentir? Que caudal pode este amor seguir?
Não sei!
Apenas sinto que o amor não pára de crescer no meu coração como os seus braços nunca deixaram de se esticarem para me alcançar. E isso bastará?
Apenas sei que ele é o jade do meu coração, sinto que habita em mim como todos os sonhos que viverei e nunca duvidei que, quando for uma estrela, a sua será a mais intensa das luzes a ensaiar o meu caminho.
Se nunca estremeci de medo, se sou audaz, se acredito, ainda, que o Mundo é um lugar de gente boa e a Vida um momento unico, tudo isso foi porque o meu pai me ensinou. Com a sua dolencia de amor.
Depois de tudo fica o que sempre soube - é que afinal os pais, também, têm ventre!

O Mapa dos Afectos

Tenho para mim que o melhor do Mundo é mesmo o Amor.
Nada se lhe iguala!
E nem é pela paixão; não é, sequer, pela alegria que nos transmite, nem mesmo pela ternura, o aconchego do fim de dia, como o fogo mais quente da lareira mais prazenteira.
É pela mescla, é a mistura, a troca, a intimidade de quem já nada tem só seu, a não ser o pensamento.
O Amor dá-nos o poder divinatório de entender, sem saber, todos os recantos do outro: só pelo seu olhar, pelo seu refulgar, até pelo seu pôr de mãos sabemos o que está a sentir, a viver, até a sofrer, ou até em quem se transformou.
Depois de amar, depois de sermos o outro, já quando não somos mais os mesmos, o nosso coração, a nossa Alma, até o nosso corpo passa a ser um templo, que, também, já não é só nosso.
É morada e destino, é marco e berço. É, sempre, ponto de passagem e, quase sempre, ponto de paragem.
E é, por isso - só mesmo por isso - que o Amor é a mais silenciosa das revoluções, que acontece muito antes de se saber, cujos detonadores estão postados em campânulas e vitrais para se dissimularem, e cujo emissário é, quase sempre, pouco mais do que um sopro.
É poderoso, portanto!
Marca e deixa marca.
Temos, por tal, que assinalá-lo no mapa dos afectos: nomeá-lo! Porque o Amor não se sente, não se vive em silêncio, nem na sombra, nem na distância.
O Amor vive-se na troca dos fluidos, no ler o outro de olhos fechados, em reconhecê-lo pelo cheiro, nas gargalhadas soltas a dois, na dança da manhã e no bezuntar do creme mais macio. Só isso é Amor!
E se um dia, ao amanhecer, sentires que já não és mais tu, quando o primeiro bater de pestanas que tão ao longe, alguém, sem saber, deu para ti, vai. Nada temas.
O Amor é mágico, dá-te tudo, mas mesmo tudo, desde que tu nada temas.
Só há uma condição: entrega-te - como um menino nos braços de sua mãe.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Niki: a história de uma menina que era um nenunfar

Nascido naquele pequeno lago, perto de muito pouco, Niki tinha o prodigio dos pequenos: tinha sabido acolher na beleza da sua cor tudo aquilo que só aquele imenso céu pode emprestar.

Mas era a sua delicadeza que mostrava bem que é na quietude que se fabricam as almas. Podia parecer, para muitos, tão-só um nenunfar, mas não era.
Era uma menina triste que, um dia, tinha sonhado ser uma flor.
Nicoleta era o seu nome.
Um nome que suava a flor. Mas agreste era a vida daquela flor.
Nicoleta tinha nascido num lar cheio de pão, onde o queijo e as azeitonas eram abundantes e o leite de cabra, um doce acre, como toda a sua curta vida.
Mas apenas os manjares abundavam!

Era, juntamente com os seus cinco irmãos, a mais velha dos filhos de um homem cuja rudeza da terra se tinha semeado no coração; e a sua mãe partira, pois só Deus tem os que mais ama.
Nicoleta tinha, assim, o mister de viver entre o jogo da cabra cega e a ordenha das cabras, a sopa quente para o jantar e o ultimo beijo que só uma mãe pode dar.
Com 12 anos, Nicoleta sabia que coser botões na camisa de um homem era muito mais do que passar linha pelos buracos de uma amalgama de plastico; era, antes de mais, saber que ele tem cheiro. E esse terror, o horror da carne viva, só se pode superar pelo sonho.

Desde que completara 8 anos, Nicoleta disse adeus ao banco da escola da Professora Marinela.
Aquela mulher, a unica que a havia inspirado a olhar para as letras e para os numeros, não como um emarado sem sentido, mas como o unico caminho para a liberdade que tanto desejava.
Mas, ainda que sem a sua vontade - como se a sua vontade fosse algo a ter em conta - teve de dizer adeus; mesmo sem saber mais do que escrever o seu nome, contar o dinheiro e reconhecer as contas (mas tudo o que era necessario para ser a mulher da casa).
Mas nesse dia, que foi o primeiro, foi também o seu ultimo dia.
Nicoleta, que da sua mãe conhecia apenas o pequeno retrato, o que sobrava no toucador do quarto do pai, nesse dia entendeu que era seu o lugar que ia tomar. E não era só na cozinha: a fazer a sopa, o panni ou a pasta.
Algo de profundamente tragico seria a comemoração daquele dia.

Mas hoje era feliz!
Era o nenunfar mais bonito da planicie onde o sol habita por paixão.
Ali podia ouvir o chilrear de todos os passaros nas longas auroras, quer sejam frias, quer sejam mornas, tal qual as da Sicilia.
Mas, melhor, muito melhor, podia - em silencio - partilhar os risos, os saltos, as brincadeiras das crianças felizes.
As crianças que têm pais a cujo pescoço se abraçam, que não precisam inventar amigos porque com eles vivem cada um daqueles eternos momentos que se respiram na memoria do futuro.
Ali a alegria era um substantivo!
E Niki, apesar de ser uma flor, era a mais bela alma daquele especial deserto.

Ter oito anos e deixar de sentir a pureza podia ter morto Nicoleta.
Aquele dia tinha sido o principio da crueza dos seus dias:
- de manhã, ainda o sol não se adivinhava, tinha de cuidar do avio que o seu pai levaria para os montes, de onde por milagre, apenas voltaria, quando o dia já se fechava;
- logo depois, tinha que levantar, um a um, todos os seus irmãos, dar-lhes de comer e ensinar-lhes o que o pai lhes negava dia após dia;
- a seguir era a mulher da casa: limpar, lavar, brunir e coser.
Como era facil tudo aquilo se não existisse noite; era a noite que tornava o silencio do dia tão magnifico!
Nicoleta nem saudades já tinha das brincadeiras do elastico, do esconde-esconde, nem mesmo da pequena boneca de trapos - a unica boneca que fora sua, e que agora, que já era mulher, dera a Tessa, à sua pequena Tessa.
A mais pequena de todos os seus irmãos, aquela que queria, mais do que tudo, proteger das garras do urso das montanhas.

Mas, agora, que era uma flor, a mais bela das flores, a que nasce com o sol e que com ele se recolhe - é bela demais para um banho de luar - Niki olvidava que outra vida tivesse existido, porque agora, para si, aquele era o caminho.
Encontrara o seu lugar no mundo. E quantas são as flores neste mundo?

Os meus faróis

Nasci sozinha, como todos! E foi sem ídolos que tenho seguido jornada.
Apenas três "faróis" me vão dando luz: Deus, o ente espiritual, meu pai, o ser afectivo e ético e Lao Tzu (ou Tsé), o ente/ser filosófico.
Hoje, inesperadamente, todos estiveram presentes: vinda da cidade, little dress, pumps, óculos "Vogue", perdi-me no planalto serrano.
E, sozinha, recolhi os meus pedaços nos lugares de outrora. Sem medo. Livre.
No meio daquele planalto, adensado de verde, mas ainda de restolho alto entre montes e lajedos, senti-me mais eu.
Eu, eu inteira. Uma parte ínfima de um vasto horizonte numa natureza tão ampla.
E a alegria foi tal que as lágrimas pingaram dos olhos.
E livre, liberta, mais eu, só me restou parar o carro, subir o som do rádio e dançar naquela vasta planicie.
E fui menina. Continuei a ser a menina que sempre fui.
Livre e feliz.
Entendi, como sempre entendo, que eu sou o meu Caminho.




E vendo-me nos mapas dos caminhos que já percorri, naqueles montes e ainda neste lugar que tem sido a minha Vida, reconheço-me, passo a passo, e rendo-me à alegria!