terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Amo-Te

Nem que seja por uma só vez, o Homem sempre sonha com o Amor.
Segredando, mesmo a quem é, anseia viver o Amor.
Ainda que indiferente à beleza, imune ao sorriso ou até desconfiado de que o outro seja incapaz de existir para além de si mesmo nunca morre no Homem a esperança de um dia sentir, de um dia experimentar a verdadeira sensação de estar vivo.
Respirar, mover-se, agir, fazer as mil coisas que se deixou aprender pode não ser viver.
O Homem faz tudo isso e, muitas vezes, apenas sobrevive.
É aquele que vivendo de forma maneirinha, como diriam os velhos sábios a quem fui ouvindo conversas ao fim da tarde, sabe que nasceu, sim, e que terá de prosseguir a sua jornada, mas ainda não entendeu porque faz tudo aquilo que aprendeu que tinha a fazer. Mas fá-lo, claro, obediente e avisadamente.
Mas chegará o dia em que o sonho o tomará, aquele dia em que a Vida será atendida como dom: o Homem mirar-se-à e entenderá como é único e tão perfeito na redonda imperfeição de quanto é e do tão-pouco que, agora, descobre que sabe.
Bastar-se-à, então, nas rugas, mesmo que vincadas, do rosto, na mais escassa força que já encontra nos seus braços, mesmo no esquecimento que, tantas vezes então, já o compromete pois que o sorriso floresceu e o olhar deixou de ser baço. Ecoa Luz.
Será o Homem novo, o fim de um esboço.
E para que seja obra-prima, a sua obra-prima, apenas precisa de ressuscitar a certeza que vive presa na Alma e que, em surdina, a cada silêncio, lhe murmura que existe um regaço onde é sempre estio e dois braços que são eterno aconchego.  
E é verdade: existe um regaço onde é sempre estio e dois braços que são eterno aconchego.  







Amo-te

 Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido. Eu próprio procuro ainda essa compreensão. Estou aqui apenas com o meu rosto, o meu olhar parado, a minha figura. Tudo aquilo que tenho para dizer está por detrás dessa imagem. Hoje, esse é o alfabeto com que realmente escrevo, o significado. Escrevo também com uma grande quantidade de elementos invisíveis, que chegam à pele e a atravessam. É dessa forma que sinto aquilo que tenho para dizer, pele e para lá da pele. 
José Luís Peixoto

sábado, 3 de dezembro de 2011

Eis-me Mulher

Muito queria saber de mim pelo que não sei.
O som do silêncio que escolho, que é toada de encontro, ecoa as sombras de quem fui, sendo.
E se ter sido parece passado, ei-lo então aqui.
Da menina que fui está intacta a fragrância do sonho no desejo de ser os que lêem todas as palavras, os que têm a Alma inundada pela sede de Mundo, sempre vivendo como mais um pedaço de Natureza: livre.
E daí se fez Caminho.
Eis-me Mulher.
Senti-o quando me descobri dona de um ventre onde era a artífice da Vida, uma nova vida tão grande como uma Alma grande e generosa.
Mais o descobri quando o ventre foi sonho, dos que começam no coração e se tornam Verbo e Luz, como os olhos que me miram e os meus buscam procurando como se faz mas, sobretudo, como se é.
Soube-o quando a Vida me desafiou, fazendo-me rumar ao epicentro de mim para que nunca me perdesse.
Vivo-o hoje de pleno.
Encontro-me inteira no coração de quem me deu Vida e cresço sempre, e em cada dia, com cada um dos dois corações que de oferenda doei ao Mundo.
Sou eu no olhar húmido e inteiro do homem que em mim vive, amante e amado, amado e amante, onde revejo a menina e os sonhos, os sonhos que são Vida.
O que mais serei não adivinho, di-lo-à cada uma das estórias que me fabricarem, do que sendo presente eu quiser aprender para ser.






                                                      É importante saber o que se quer,
                                                      ser sempre sincera,
                                                      ter vontade própria mesmo que seja difícil,
                                                      pensar sete vezes antes de decidir alguma coisa,
                                                      mas mostrar-se aos outros tal como se é.

                                                     Snu Abecassis                        

domingo, 27 de novembro de 2011

Olhos

Sabemos todos o que é saudade. Sabemos por sentir.
Houve um dia, ou só talvez uma hora que pode ser sido apenas um minuto, em que um pedaço, que era parte de nós, se esvaiu: ou por se ter escoado na pegada de um sol que nunca mais nascerá, por ser parte de um coração que bate ao compasso da nosso arfar ou tão-só porque seguiu na aragem do sonho que, de tão belo, só o Tempo o pode resguardar porque a memória é demasiado escassa - pois é humana.
Sobrevem um silêncio, que não o é, mas sim uma pequena lástima; não mais do que o desejo de sentir onde mora o seu Eu, de encontrar o Caminho de volta para si. O desejo de voltar a casa.
Aquele momento em que o suspiro é de tranquilidade e o aconchego o reencontro de todos os odores, pois ali todos os olhos nos podem mirar desnudando, que sempre nos achamos acolhidos. Por vezes as palavras até sobejam que só o rumor do sentir é meio de fazer cavalgar aquelas Almas à solta.
Haverá um segundo, que pode mesmo ser um ano ou toda a Eternidade, em que nunca mais teremos que saber o que é saudade. Aquele em nunca mais sairemos daquele recanto que são os que amamos: o momento em que saberemos sentir que aquele silêncio é mágico porque nele falam todos os que amamos pois a sombra que vertemos já não é do Eu, é o espelho de todos os bem-quereres.
É o instante da Imortalidade, o da certeza de nos sabemos vivos para sempre na memória de quem connosco vive a Luz de um olhar.






Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos 
que nos coroaram 
todas as estradas 
radiosas que abrimos 
irão achando sem fim 
seu ansioso lugar 
seu botão de florir 
o horizonte 
e que dessa procura 
extenuante e precisa 
não teremos sinal 
senão o de saber 
que irá por onde fomos 
um para o outro 
vividos 

Mário Cesariny

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Caminho para a Felicidade



Desavisadamente, como sempre as belas coisas acabam por acontecer, dei-me conta de que nada na Vida, em especial na minha, tinha Verdade e sentido sem a Luz própria que de mim brota.
Uma daquelas interpelações que se escutadas no mais íntimo poderá produzir o princípio ou o fim.
Com ela veio o silêncio, o mirar e o viver em suspenso, como se fosse uma gota de água tão transparente, quanto fluída e consistente: um Mundo só.
E quando assim se olha a Vida, revendo-nos como só um pedaço mas um todo também, há uma espécie de consolo que provém da capacidade de sermos tudo e nada.
Neste aparente desencontro de mim, que mais não era que o encontrar do Caminho, num cais de embarque vim a cruzar-me com uma Alma grande, a que habita numa mulher fabulosa, que em não mais de cinco minutos, me revelou a placidez e a candura que sempre se descobrem em quem já tanto viveu mas que sempre tem o deslumbramento no olhar: íamos ambas para Paris - eu para me deliciar com um filho, aquela enorme senhora para conhecer o seu neto.
E eu que já antevia o Caminho, pelas suas mãos vi chegar as letras decisivas para o entender; melhor, as convenções para entender o mapa que eu sou.
"O Segredo para a Felicidade", escrito por Jacques de Coulon.
Aquele que, se olharmos ao rótulo, pode assemelhar-se a um livro de auto-ajuda, nada mais é que um roteiro de perguntas, das mais difíceis, e também urgentes, que cada um se impõem e, as mais das vezes, não ousamos responder.
Foi um desafiante roteiro, saboroso até, pois foi levado até ao ultimo esteio.
A conclusão foi bela: encontrei-me na poesia, a mais  bonita forma do silêncio.
Afinal não mais que o reencontro com quem sempre fora.
Recordo-o hoje em homenagem àquela mulher, a Prof. Ana Albuquerque Queiróz, lembrando Tagore, o poeta, companheiro de todos os momentos, cujo nascimento ocorreu há 150 anos, precisamente no mesmo dia, amanhã, 3 de Maio, que a pequena Joana, agora já com 4 anos, me lembra que todos os sonhos são a Vida.
Basta sonhá-los.



Cântico da Esperança


Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos,
mas coragem para afrontá-los.

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão cobarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso! 



Rabindranath Tagore

terça-feira, 22 de março de 2011

A Festa da Vida

Inexplicavelmente o sonho acontece.
Inexoravelmente a Vida torna-se num sonho.
Inexplicavelmente encontro-me, como nunca antes, na pessoa que sempre fui.
E olhando em redor, mirando-me, e mesmo perscrutando-me, interpelando-me "quem és?", acabo sempre por descobrir que nada fiz para o fabrico deste sonho, que é Vida.
Cumpro o meu Caminho, que é, antes de mais, o da incessante busca da serenidade: a capacidade de ser contido e de viver em silêncio tudo aquilo que ao humano parecia, na natureza das coisas, importar um jorro imponente de sentimentos.
Tenho para mim que ser sereno, a qualidade de quem se embranha com a serenidade, é ter a capacidade de se olhar em véu e murmúrio, impregnando-se em si, vivendo, sobretudo, em si, para, então, em dádiva, poder apenas com um sorriso, e talvez uma pequena mão-cheia de palavras ou tão-só acenos, dividir pelos que lhe são pele o que é marca de Divino e em si tem morada.
Mas há um dia em todas as vidas, como na minha, a Vida que vivo, que lhe chamo a "Festa da Vida", em que a interpelação, a demanda de emoções e afectos é inédito: não é já um jorro, nem uma torrente; é tudo isso, mas sem o ser.
E a serenidade sublimou-se, como até aqui nunca acontecera, e, a verdade, com uma nova Luz.
Nada é apenas meu, o olhar já não é só de silêncio, e há uma mescla com timbre de gargalhada, abraço e encontro que é produto de Vida vivida.
Sei-me Eu, quando nunca antes, na pessoa que sempre fui, mas de forma como nunca havia sido.




     Agora me Sinto Alegre e Inspirado

     Agora me sinto alegre e inspirado em chão clássico; 
     Mundo de outrora e de hoje mais alto e atraente me fala. 
     Aqui sigo eu o conselho, folheio as obras dos velhos 
     Com mão diligente, cada dia com novo prazer. 
     Mas, noites fora, Amor me mantém noutra ocupação; 
     Se apenas meio me instruo, dobrada é minha ventura. 
     E acaso não é instruir-me, quando as formas dos seios 
     Adoráveis espio e a mão pelas ancas passeio? 
     Compreendo então bem o mármore; penso e comparo, 
     Vejo com olhar tacteante, tacteio com mão que vê. 
     E se a Amada me rouba algumas horas do dia, 
     Em recompensa me dá as horas todas da noite. 
     Nem sempre beijos trocamos; falamos sensatos; 
     Se o sono a assalta, fico eu deitado a pensar muitas coisas. 
     Vezes sem conto eu tenho também poetado em seus braços 
     E baixo contado, com mão dedilhante, a medida hexamétrica 
     No seu dorso. Em sono adorável respira, 
     E o seu hálito o peito me acende até à raiz. 
     O Amor atiça a candeia entretanto e pensa nos tempos 
     Em que aos Triúnviros seus o mesmo serviço prestava.

               Johann Wolfgang von Goethe


quarta-feira, 16 de março de 2011

O Amante e o Amado

No seio do indistinto encontramos sempre a marca do que é nosso.
Postem-se Homens na multidão e nenhum deles ficará só, já que qualquer Homem tem rosto que é Alma de outro Homem: ninguém está só porque a si pertence e ao outro para quem é marca do eterno em si, pois ninguém é feliz sozinho.
Tanto quanto da água, que também alimenta, o reconhecimento é fonte de Vida: uns olhos que nos miram, também nos seguram!
Os finíssimos véus, que mais a teias se assemelham, recolhem-nos do Mundo, são, também, as correntes que ligam os amantes.
Aos amantes, os que geram o Amor como cálida frescura em estiagem demorada, liga-os a ventura de se saberem de outro, sem que nunca nada seja só seu: nada, a cada um, pertence; tudo, mas tudo mesmo, é deles.
O azul do céu, o rumor dos pássaros, a frescura do vento da manhã são o sentir de quem ama, se é que não é mesmo a marca de que para o Mundo carream de que só o Amor o faz mover.
Quem ama sabe que o nada fica igual depois das campânulas do pequeno relicário passarem a soar, não já o costumado tique-taque, mas ora um solo de piano ou já uma melodia desfiada de banjos ou mesmo a toada de um realejo.
O amado guarda já em si um Universo, que é também Cosmos, pois cresceu, inundou-se do que é mais precioso: o Amor.



"Nesta era em que tudo é fabricado, em que nada é natural, em que nada é puro; em que os primeiros beijos se trocam por telemóvel, se fala por sms e os ditos «encontros românticos» acontecem no cinema, entre um balde de pipocas e um copo de coca-cola, nesta era, que já não é minha, já não é tua, já nem é nossa; deixa-me falar-te de amor. Não quero falar deste «amor» novo, feito de «roda-bota-fora», que nasce podre e é vazio. Não te quero falar do amor para passar tempo, que se joga na Internet; nem daquele que se conhece num bar ou numa discoteca. 
Não: deixa-me falar-te de amor como o conheço, da mesma forma lamechas e (hoje) tão fora de moda; a mesma que te ensinaram os teus pais ou os teus avós; como era antigamente, quando passeavam junto ao rio, por vezes de mãos dadas, e coravam ainda, se encontravam alguma cara conhecida. Deixa-me falar-te do amor que me ensinaste. O amor que me ensinaste começou por um acaso, porque, por acaso, eu estava sozinha e tu também. O amor que me ensinaste não foi cozinhado nem confeccionado a propósito. 
No nosso amor, tu dás-me a mão e eu coro; convidas-me para sair e eu hesito; brincas com os meus caracóis e eu gosto; bebemos chá e ficamos ébrios; passeamos à beira-rio e pode ser que nos beijemos. No nosso amor, não somos só amantes, mas somos cúmplices. E companheiros. Olhas para mim e lês-me nas entrelinhas. Olho para ti e sei-te de cor. Sorrio e mergulhas nesse sorriso. Abraças-me e absorves-me inteira. Dizes-me «amo-te» e eu acredito. 
O amor que me ensinaste é puro, é natural, é biológico, sem corantes nem conservantes. Mas deixa-me contar-te um segredo: nesta era, que já não é minha, já não é tua, já nem é nossa; o nosso amor, ainda encanta!" 


Ana Rita da Silva Freitas Rocha

segunda-feira, 14 de março de 2011

Depois de ter vivido, como tango dançado

Ecoar a Alma é uma forma de dádiva em que viver é muito mais do que respirar.
É ir ao encontro do outro, aquele que sendo ele tem já uma morada em nós, como sopro de Vida que nunca antes havíamos entendido que poderia ser e que agora sabemos nosso.
Há mesmo momentos em que o outro está em sussurro, murmúrio breve e quase indistinto, e, no entanto, é uma vastidão imensa que insufla todas as velas em que somos Vida.
Descobrirmo-nos fora de quem somos, para além de um corpo, e sendo em Alma que, indistintamente, é o eu mas é o outro, ele, também, é saber que o perecível termina quando o eterno nos assoma e vamos rumo a um lugar que o não é, mas que sempre será: uma sombra, um recanto, uma visão, talvez, uma certeza, porém.
Aquilo que sempre havíamos sabido ser, um tesouro, guardado na intimidade de quem é pessoa, é, agora, momento de celebração de uma intimidade dividida, festa de Vida, com quem passámos a ser faces distintas de um mesmo sentir, embora com rostos delineados em passadas de Caminho diverso porque ser íntimo não é ser igual, nem sinónimo.
E nesta simbiose, que é sinalagma, somos princípio e fim porque o Infinito nos é dado como tal, de vestígio do Pleno testemunhamos já que a sombra do nosso olhar reluz nuns outros olhos, nossos também.
Tudo é nosso, sem ser; mas sendo-o como nunca nada o foi.
E ser quem somos também já não acontece: é escasso.
Eis, quando, depois de vivido, como tango dançado, vislumbramos o que é já pressentimento - quem ama nunca morre, pois persiste no tanto que viveu e na Vida que inventou para quem cruzou no seu olhar.



"Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se alcança o coração de alguém com pressa.
Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado.
Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente.
Conquistar um coração de verdade dá trabalho, requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança.
É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade.
Para se conquistar um coração definitivamente tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos.
Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes, que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.
...e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele, vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.
Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração.
Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que?
Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.
... e é assim que se rouba um coração, fácil não?
Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade, a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!
E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... é simples... é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você."
Luís Fernando Veríssimo

domingo, 6 de fevereiro de 2011

De Pleno em Pleno

De tudo o que se viveu ficou a memória.
Olhar o passado com um olhar de mágoa ou desdém é desavisado, digo eu. Ficou um parte do que somos, por lá trilhámos uma parte do Caminho.
Lá está, sobretudo, aquilo que também foi, então, sonho e presente.
Um Homem que se constrói, de pleno em pleno, acaba sempre por descobrir que não são os ângulos que fazem marca pelo Mundo, é, sim, o olhar redondo que vamos ganhando ao afeiçoar cada momento vivido: seja ele um instante de fulgurante alegria ou um desafio que nos faz temer, até, que venha a ser manhã.
E descobre no hoje, aqui e agora, que aquele passado foi uma semente que agora é presente.
Presente porque é hoje, presente porque é o fio de Vida que importa honrar como de maior prodigio, presente porque, também, a cada um de nós cabe estender o seu tapete vermelho ao melhor que em si existe e dá-lo de volta ao Mundo.
Sei que vivi tudo o que é passado com a alegria de quem tem um presente e degustei cada pequeníssimo pedaço como um manjar para Deuses e por isso estou sem mácula. Inteira e íntegra.
No hoje, ao longe, miro o amanhã.
Jogo de sombras ou desejo antecipado?
Vida apenas; mas Vida que se anuncia como flor em botão.
Viver no absoluto é sentir, sabendo, que nada nos afasta do que é Caminho, pois cada hora é uma hora tal como sol é sempre aurora e Paris uma festa: um sonho com uma fita enlaçada.
Absoluto que é pedaço da eternidade que nos brinda, de onde vimos e para que estamos devotados; pois nenhum Homem é jogo de perecibilidades nem brinde de vazio, muito menos equação de invariáveis.
Homem é sinonimo de tudo o que é belo, alegre e amoroso e, por tal, pleno. 
Assim Homem.



Põe quanto És no mínimo que Fazes


Para ser grande, sê inteiro: nada
          Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
          No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
          Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

E o código, Dulcineia...

De tudo o que é visível pouco resta ao Homem para além da carne e do sangue, osso, também.
Uma armadura, nem sempre valente, muitas vezes disforme, outras tantas em harmonia. Bela, ainda.
Mas quem já viveu sabe que muito mais está para além, depois do que existe na marca do olhar.
Nenhum Homem, nunca, terminou pelas margens do que é o seu corpo.
O Homem é, mais que tudo, a substância dos seus sonhos.
Aquele que ousa aprontar-se ao encontro de todos os desafios, sejam eles o combate de lutar pelo seu igual que sofre o rude golpe da injustiça - que brava é cortante, como o de impôr com um sorriso a verdade de que o Homem só o é quando se arma Cavaleiro Andante, vive de sonho.
Cavaleiro Andante, ele que segue montado num fogoso cavalo e nele vai pelo Mundo, calcorreando cada vereda, todas as esquinas, esgotando todos os recantos. Porque em todos ele vive, ali se encontra, em todos se esvai, por ali se encontra sempre.
Cavaleiro Andante, ele que encontra a humanidade do seu igual no companheiro de andamento, Sancho, o infatigável amigo, o que lança tantas das sementes que ele, Cavaleiro, acaba por apreciar já em flor nas veredas do Caminho.
Cavaleiro Andante, ele que sabe que nunca o poderia ser, em verdade, sem uma musa, Dulcineia, a sua Dulcineia, pois. Poema escrito em forma de mulher que se quer dita em cada hora de cada dia que passa, deixando-se navegar na trova do vento que ela é. Musa porque sabe ser aquele o seu Caminho.
E se o segredo deste Cavaleiro Andante é apenas o sonho, mesmo o único segredo para que se opere a verdadeira revolução, a do encontro ao Eu e a busca de se ser feliz, o seu código é Dulcineia, a musa que o inspira a sonhar.
Então feitos Cavaleiros, sabemos, finalmente, que a carne e o sangue pouco importam quando sabemos sonhar.






Mergulha nos Sonhos


mergulha nos sonhos
ou um lema pode ser teu aluimento
(as árvores são as suas raízes
e o vento é o vento)

confia no teu coração
se os mares se incendeiam
(e vive pelo amor
embora as estrelas para trás andem)

honra o passado
mas acolhe o futuro
(e esgota no bailado
deste casamento a tua morte)

não te importes com o mundo
com quem faz a paz e a guerra
(pois deus gosta de raparigas
e do amanhã e da terra)

E.E. Cummings

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Lado a Lado




Nascidas meninas, crescidas mulheres.
Foi há muito, tanto, tanto tempo que nos olhámos pela primeira vez; mas da fortaleza desse primeiro vislumbre, tímido mas seguro, ficou a memória de uma esperança de futuro. Aquele em que, hoje, nos encontramos.
Corria o ano de 1983 e nós corríamos, também, mas para a vida.
Sôfregas, mas com calma. Como sempre.
Irmanadas, mas morgadas. Ambas, também.
Votadas na ânsia de trazer o desconhecido até nós, mas invariavelmente com o brilho de quem descobre uma nova estrela.
Com os olhos votados nos nossos Mestres, os professores que a ambas desafiaram, mas com eles atentando tanto, ainda mais, nos camaradas de brincadeira e aventura.
Dedilhando, folha a folha, cada livro como um relicário que buscávamos como devoção, mas felizes, sobretudo, por cada nova experiência de vida ao vivo.
Destacadas pela vontade de crescer, mas não só nas letras, como na plenitude de nos distribuirmos pelo Mundo.
Crentes em nós, seguras em todos.
Passo-a-passo, pela planura dos dias, nos fomos fazendo mulheres.
Até que chegou 1986, apenas três anos após, e a hora de seguirmos diversos trilhos.
Uma quis conhecer a História, inclinou-se pela aventura do jornalismo e decidiu-se pela escrita; sendo, sempre, sempre, invariavelmente brilhante. Nas artes, como na vida.
Mantendo-se intrépida, única e igual a si mesma. Mas melhor, muito melhor, a cada segundo que se inaugura.
A outra desejou conhecer as regras que o Homem dita, sonha com a poesia e tenta encontrar-se todos os dias pela aventura de amar, amando muito. Quer sonhando com um Mundo melhor, quer amando todos que lhe enfeitam o coração.
Aquiestou-se um tanto, mantendo-se, todavia, liberta como uma gaivota, segura como uma âncora e frágil como um cristal da Bohemia. Buscando-se sempre.
Entre nós há 27 anos de recordações, de cumplicidade, de saudades do futuro.
Isto sem que seja possível descontar os quase 24 anos que estivemos em silêncio mas sempre sabendo-nos uma da outra, ligadas pelo fio invisível que se chama tudo.
Eu dei-lhe o Pedro e a Maria, que adoram a "tia" Maria João; ela dá-me a beleza única do aconchego das palavras que ditam afecto; como hoje, em dedicatória, no seu belíssimo romance "Como o Ar que Respiras".
Damo-nos, como sempre foi, em alegria magnânima, o mesmo primeiro olhar e a mesma esperança no futuro, vivendo muito.
Sendo sempre irmãs.

Para ti Maria João Martins, a mais cúmplice das irmãs.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Nós Próprios

Vivemos enxameados pela palavra "crise", pelo soluto do "irresolúvel" e a esperança é um caldear que parece ter-se esvaído.
Tudo como se fosse a primeira vez.
Nada como se fosse uma emergência já vivida pelos tantos milhões que já são estrelas.
Mas de que se trata quando se disserta de toda esta temática tão supostamente aterradora?
De nada do que o Mundo fala, digo eu.
O tempo é o, sim, de absoluta interpelação ao Eu, pelo quanto são as traves e o cimento de quem somos - afinal os valores, que como candeias nos permitem abrir caminho pelas veredas em que nos passeamos pela Vida.
Em cada tempo, pelo que de evolução o Homem regista, parece que o imutável deixou de existir: do absoluto ao relativo, nada mais é suficientemente perene para ser a verdade e, nessa medida, ser eterno.
De um relógio de corda, acertado ao ritmo do anúncio das horas na radiodifusão, que tinha a vida resguardada em várias gerações, pois de avô a pai, a filho e neto, sempre chegaria ao pulso do bisneto quase todos hoje somos portadores de tantos contadores do tempo, muitos descartáveis, pois estamos acudidos pela acutilância do instável.
É verdadeiro desafio, hoje como sempre, mantermo-nos íntegros e inteiros, mesmo e ainda que isso signifique abdicar do que nos é grato: é saber, como verdade, que tudo o que realmente importa não perece com os tempos, antes mais forte se modela.
É saber que o efémero é tão-só o que não habita em nós, o que cabe em malas e maletas, em sacos e saquetas; não já o que tem cómodo tanto na Alma, quanto no coração.
E que por isso, qualquer que seja a novidade que nos alicie, a derrota que nos fustigue, o deslumbre que se mostre há apenas uma forma de continuar a viver: é sendo, sem armadura, nós próprios, com a carga de liberdade, sonhos e dignidade que nos faz únicos.






Vida



Sempre a indesencorajada alma do homem
resoluta indo à luta.
(Os contingentes anteriores falharam?
Pois mandaremos novos contingentes
e outros mais novos.)
Sempre o cerrado mistério
de todas as idades deste mundo
antigas ou recentes;
sempre os ávidos olhos, hurras, palmas
de boas-vindas, o ruidoso aplauso;
sempre a alma insatisfeita,
curiosa e por fim não convencida,
lutando hoje como sempre,
batalhando como sempre.

Walt Whitman

domingo, 9 de janeiro de 2011

O Encontro

No respaldar dos dias que escorrem vamo-nos encontrando, a nós e a todos os demais, tantos quantos se dividem connosco.
E como de encontro se trata, de cerimónia assim é.
Começamos, invariavelmente, por enfeitarmo-nos: no coração e no corpo.
Mais do que nunca, a pele ganha uma maciez aveludada, o odor transporta-nos para todas as primaveras de campo e cresce a magia de um olhar agora transportado para um universo tão menos longínquo quanto mais promissor.
Também no coração se instala a festa da Vida.
Ali começam por nascer todos os enlevos, o toque daquele relógio é, agora, de um diferente fulgor e a História de todas as história tem ali o seu prólogo.
E, então, se seguem os ritos, quantas vezes sem cânones, muitas vezes com aquele medo que o não é, mas sim uma medida diversa de devaneio e embaraço mitigado pelo ensejo, quando não pelo desejo, de se ser o que já se é: nós e o outro.
E vem uma palavra, segue-se um gesto e logo, logo um olhar, quase sempre um sorriso e já não somos nós!
Somos nós e as imensas gargalhadas de miúdos ladinos pela enorme traquinice que enfabulámos, encantados pela sucessão de palavras loucas que dividimos tanto quanto pelo abrigo que é a concha das mãos do outro que sempre consigo nos tem.
E em cada momento em que, como velas ao vento, sentimos rumar, seja qual for do destino daquele sopro, já que agora, que tudo é novo e de brilho, sabemo-nos ímpares: pois um busca o outro, buscando-se a si no outro, pois o outro é já um eu, sendo também ele.
E tecem-se sonhos, filigrama de almas com Vida, e em nós novos pedaços encontramos, aqueles que nem sabíamos ter: as lágrimas prenhes de um novo contentamento, este mais doce e feliz, mas intenso e cúmplice; as palavras agora incontidas que antes eram enoveladas em metáforas ricas de sons e imagens mas paupérrimas ao dizer; a liberdade de sentir que o novo será sempre novo porque queremos fazer dele a novidade de viver, a renovação de cada segundo em que a Vida se nos oferece.
E descobrimo-nos no milagre do encontro, do encontro que é, pois, um milagre.
O milagre de estar não só vivo, mas de viver, de se encantar com os fiapos, com os véus e o translúcido; o que, de tão vago, parece não existir mas é a corda mais encorpada do nós.
O murmurio do "amo-te".




Da verdade do amor


Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor

José Tolentino Mendonça



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Na Luz desse Olhar

Quem são as pessoas que amamos?
São, claro, os rostos com vida que emolduramos na Alma e que connosco seguem, logo ali, na segunda camada da pele.
Cada um deles é, também, por quem passamos a respirar, pois é que são já uma parte que é parte de nós.
Enfeitam-nos a Vida como nos preenchem, ainda, coração no coração.
Esse é o rosto que se nos afigura, a nós, que os olhamos, mirando, na parcela de infinito que em nós vivem.
Mas a primordial questão continua: quem são eles afinal?
A definição do que somos faz-se pela Luz que vertemos: como janelas abertas ao Mundo, os nossos olhos fazem desaguar tudo o que a Vida nos trouxe, tudo o que dela soubemos arrecadar, mais o quanto nos amaram e fomos doando, dando e partilhando. Tudo nós!
Essa Luz, um foco primordial, é mais que uma impressão digital; é que esta é carne, perecível assim; já a Luz é etérea e nunca se desfaz nas horas dos dias dos anos em que cada Vida se conta.
Fica sempre, mesmo quando partimos, nem que seja pela viagem ao Infinito.
É, verdadeiramente, a única prova da nossa singularidade.
Mas quem somos?
Esta é, no último momento, a única pergunta a que urge dar resposta.
É mesmo a única que tinge a seu modo esta Luz!
Apenas vivendo em verdade, mirando-se sem qualquer pudor no espelho da individualidade, desnudado portanto, pode cada um de nós transbordar uma Luz alva.
Aceitando as suas arestas, amando as suas rugas, deliciando-se com os sonhos que já voaram porque sabe que novos virão nos descobrimos como singular, e, assim, obra prima.
Só então somos o nosso eu; sendo naquele momento que damos quem somos ao Mundo naqueles que nos acolhem: apenas então somos a chama da lealdade.
A Luz verdadeira.



Eu

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...

Álvaro de Campos

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Eu

Raramente um Homem conhece outro melhor que a si.
Nascemos do embrulho de outros, os que nos produzem de sonhos ou então do acaso, mas ao virar de cada esquina, no fim de cada recta, sempre depois dos tantos cruzamentos que havemos de experimentar, começamos a tomar consciência de que somos um outro.
Devagar, pois nisto de descoberta tudo é de mansinho, começamos por lançar o olhar àquilo que, afinal, não somos, percebendo o que, é certo, não queremos.
É um jogo de olhares e desmentidos!
Olho-me, vejo-me, chego a buscar-me e a rebuscar-me e nada mais sei do que o que não sou!
Qual teatro de sombras, eu sou eu e estou lá tal como a sombra de mim; mas eu não sou só eu, mas a sombra também não me tem a mim: somos ambas e nada somos.
Indo um pouco mais além, fazendo o Caminho borda fora, começamos a saber-nos diversos: diferentes de quem se demora em nós, com o sentir tão distinto de quem vai connosco partilhando os sonhos, com uma pele tão menos fluída daquela mão que tanto nos acariciou.
E tudo pára.
De repente, ou mesmo de rompante, sabes que és tu.
Tu.
Uma plenitude de verdade, aquela novidade que, enfim, se descobre.
Percebes-te unico e o unico lugar onde és verdadeiramente teu e inteiro: podes revelar-te sem que isso te produza mácula, podes ser sem que tal provoque dor - sempre momento de partida, eterno momento de chegada.
Contigo nunca estás só e sabes-te sempre pronto para a hora de qualquer partida que a Vida te marcar, pois de nós para connosco acabamos por entender, ao som do silêncio, que somos a unica amurada que sempre nos acompanhará.   



O Solitário


O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.
Miguel de Unamuno

 

domingo, 2 de janeiro de 2011

A memória do Amor

De tudo quanto se vive fica a memória.
Gosto de mirar-me, não que o seja por mim, apenas por mim; apraz-me o gosto de reencontrar todos os gestos de quem me fabricou.
Neste extenso álbum dos afectos fica a indelevel marca de que vivi, por todo este tempo de Vida, na alma de quem me quis seu. Assim me fazendo seu.
Os afectos, que são os afagos mais doces, os olhares mais meigos, o dedilhar mais macio, tornam-nos sempre novos peregrinos, olhando o rugoso do Caminho com um novo enlevo; Caminho que se segue com uma nova serenidade.
Quem ama, quem mais ama, é, decerto, quem mais se ama, pois que outro modo seria para amar o pedaço de nós que já é barro de outrem, aquele fio tão perene mas que nos segura para sempre?
Do Amor e dos amores recolhe-se Vida, mais e sempre mais e melhor sentido de a viver; pois novo sangue nos inunda, novo compasso nos dita, novo Luz nos ilumina.
Somos, eternamente, novos quando amamos, sendo que quem ama inaugura em si uma diversa morada a cada instante: a Vida de quem o inunda, a Luz de quem o ilumina.
E um coração com tantas bainhas e pespontos é um coração verdadeiramente bordado e, assim, sempre mais belo: seja a ponto-cruz, a cheio ou a ponto pé-de-flor, ou mesmo com todos eles, será um coração diverso.
Do Amor nunca se poderá lamentar nada que não seja vivê-lo, pois quem se acolhe no medo de um tique-taque diferente não vive, sente apenas o rumor das horas. Horas perdidas!
Amo e amarei para sempre.
A todos que me fizerem resgatar os sonhos e a melhor memória de mim: a menina-mulher, que nascendo só, se fez em quem lhe ditou forma e lhe ensinou que viver é muito mais que olhar a dança da árvores ou que se segurar na margem mais próxima.
Amar é mesmo seguir no maior dos balões e desejar muito que o vento nos transporte ao mais longe de nós.


A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luis Peixoto