Segredando, mesmo a quem é, anseia viver o Amor.
Ainda que indiferente à beleza, imune ao sorriso ou até desconfiado de que o outro seja incapaz de existir para além de si mesmo nunca morre no Homem a esperança de um dia sentir, de um dia experimentar a verdadeira sensação de estar vivo.
Respirar, mover-se, agir, fazer as mil coisas que se deixou aprender pode não ser viver.
O Homem faz tudo isso e, muitas vezes, apenas sobrevive.
É aquele que vivendo de forma maneirinha, como diriam os velhos sábios a quem fui ouvindo conversas ao fim da tarde, sabe que nasceu, sim, e que terá de prosseguir a sua jornada, mas ainda não entendeu porque faz tudo aquilo que aprendeu que tinha a fazer. Mas fá-lo, claro, obediente e avisadamente.
Mas chegará o dia em que o sonho o tomará, aquele dia em que a Vida será atendida como dom: o Homem mirar-se-à e entenderá como é único e tão perfeito na redonda imperfeição de quanto é e do tão-pouco que, agora, descobre que sabe.
Bastar-se-à, então, nas rugas, mesmo que vincadas, do rosto, na mais escassa força que já encontra nos seus braços, mesmo no esquecimento que, tantas vezes então, já o compromete pois que o sorriso floresceu e o olhar deixou de ser baço. Ecoa Luz.
Será o Homem novo, o fim de um esboço.
E para que seja obra-prima, a sua obra-prima, apenas precisa de ressuscitar a certeza que vive presa na Alma e que, em surdina, a cada silêncio, lhe murmura que existe um regaço onde é sempre estio e dois braços que são eterno aconchego.
E é verdade: existe um regaço onde é sempre estio e dois braços que são eterno aconchego.
Amo-te
Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido. Eu próprio procuro ainda essa compreensão. Estou aqui apenas com o meu rosto, o meu olhar parado, a minha figura. Tudo aquilo que tenho para dizer está por detrás dessa imagem. Hoje, esse é o alfabeto com que realmente escrevo, o significado. Escrevo também com uma grande quantidade de elementos invisíveis, que chegam à pele e a atravessam. É dessa forma que sinto aquilo que tenho para dizer, pele e para lá da pele.
José Luís Peixoto














