terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Eu

Raramente um Homem conhece outro melhor que a si.
Nascemos do embrulho de outros, os que nos produzem de sonhos ou então do acaso, mas ao virar de cada esquina, no fim de cada recta, sempre depois dos tantos cruzamentos que havemos de experimentar, começamos a tomar consciência de que somos um outro.
Devagar, pois nisto de descoberta tudo é de mansinho, começamos por lançar o olhar àquilo que, afinal, não somos, percebendo o que, é certo, não queremos.
É um jogo de olhares e desmentidos!
Olho-me, vejo-me, chego a buscar-me e a rebuscar-me e nada mais sei do que o que não sou!
Qual teatro de sombras, eu sou eu e estou lá tal como a sombra de mim; mas eu não sou só eu, mas a sombra também não me tem a mim: somos ambas e nada somos.
Indo um pouco mais além, fazendo o Caminho borda fora, começamos a saber-nos diversos: diferentes de quem se demora em nós, com o sentir tão distinto de quem vai connosco partilhando os sonhos, com uma pele tão menos fluída daquela mão que tanto nos acariciou.
E tudo pára.
De repente, ou mesmo de rompante, sabes que és tu.
Tu.
Uma plenitude de verdade, aquela novidade que, enfim, se descobre.
Percebes-te unico e o unico lugar onde és verdadeiramente teu e inteiro: podes revelar-te sem que isso te produza mácula, podes ser sem que tal provoque dor - sempre momento de partida, eterno momento de chegada.
Contigo nunca estás só e sabes-te sempre pronto para a hora de qualquer partida que a Vida te marcar, pois de nós para connosco acabamos por entender, ao som do silêncio, que somos a unica amurada que sempre nos acompanhará.   



O Solitário


O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.
Miguel de Unamuno

 

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