São, claro, os rostos com vida que emolduramos na Alma e que connosco seguem, logo ali, na segunda camada da pele.
Cada um deles é, também, por quem passamos a respirar, pois é que são já uma parte que é parte de nós.
Enfeitam-nos a Vida como nos preenchem, ainda, coração no coração.
Esse é o rosto que se nos afigura, a nós, que os olhamos, mirando, na parcela de infinito que em nós vivem.
Mas a primordial questão continua: quem são eles afinal?
A definição do que somos faz-se pela Luz que vertemos: como janelas abertas ao Mundo, os nossos olhos fazem desaguar tudo o que a Vida nos trouxe, tudo o que dela soubemos arrecadar, mais o quanto nos amaram e fomos doando, dando e partilhando. Tudo nós!
Essa Luz, um foco primordial, é mais que uma impressão digital; é que esta é carne, perecível assim; já a Luz é etérea e nunca se desfaz nas horas dos dias dos anos em que cada Vida se conta.
Fica sempre, mesmo quando partimos, nem que seja pela viagem ao Infinito.
É, verdadeiramente, a única prova da nossa singularidade.
Mas quem somos?
Esta é, no último momento, a única pergunta a que urge dar resposta.
É mesmo a única que tinge a seu modo esta Luz!
Apenas vivendo em verdade, mirando-se sem qualquer pudor no espelho da individualidade, desnudado portanto, pode cada um de nós transbordar uma Luz alva.
Aceitando as suas arestas, amando as suas rugas, deliciando-se com os sonhos que já voaram porque sabe que novos virão nos descobrimos como singular, e, assim, obra prima.
Só então somos o nosso eu; sendo naquele momento que damos quem somos ao Mundo naqueles que nos acolhem: apenas então somos a chama da lealdade.
A Luz verdadeira.
Eu
Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
Álvaro de Campos

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