quarta-feira, 16 de março de 2011

O Amante e o Amado

No seio do indistinto encontramos sempre a marca do que é nosso.
Postem-se Homens na multidão e nenhum deles ficará só, já que qualquer Homem tem rosto que é Alma de outro Homem: ninguém está só porque a si pertence e ao outro para quem é marca do eterno em si, pois ninguém é feliz sozinho.
Tanto quanto da água, que também alimenta, o reconhecimento é fonte de Vida: uns olhos que nos miram, também nos seguram!
Os finíssimos véus, que mais a teias se assemelham, recolhem-nos do Mundo, são, também, as correntes que ligam os amantes.
Aos amantes, os que geram o Amor como cálida frescura em estiagem demorada, liga-os a ventura de se saberem de outro, sem que nunca nada seja só seu: nada, a cada um, pertence; tudo, mas tudo mesmo, é deles.
O azul do céu, o rumor dos pássaros, a frescura do vento da manhã são o sentir de quem ama, se é que não é mesmo a marca de que para o Mundo carream de que só o Amor o faz mover.
Quem ama sabe que o nada fica igual depois das campânulas do pequeno relicário passarem a soar, não já o costumado tique-taque, mas ora um solo de piano ou já uma melodia desfiada de banjos ou mesmo a toada de um realejo.
O amado guarda já em si um Universo, que é também Cosmos, pois cresceu, inundou-se do que é mais precioso: o Amor.



"Nesta era em que tudo é fabricado, em que nada é natural, em que nada é puro; em que os primeiros beijos se trocam por telemóvel, se fala por sms e os ditos «encontros românticos» acontecem no cinema, entre um balde de pipocas e um copo de coca-cola, nesta era, que já não é minha, já não é tua, já nem é nossa; deixa-me falar-te de amor. Não quero falar deste «amor» novo, feito de «roda-bota-fora», que nasce podre e é vazio. Não te quero falar do amor para passar tempo, que se joga na Internet; nem daquele que se conhece num bar ou numa discoteca. 
Não: deixa-me falar-te de amor como o conheço, da mesma forma lamechas e (hoje) tão fora de moda; a mesma que te ensinaram os teus pais ou os teus avós; como era antigamente, quando passeavam junto ao rio, por vezes de mãos dadas, e coravam ainda, se encontravam alguma cara conhecida. Deixa-me falar-te do amor que me ensinaste. O amor que me ensinaste começou por um acaso, porque, por acaso, eu estava sozinha e tu também. O amor que me ensinaste não foi cozinhado nem confeccionado a propósito. 
No nosso amor, tu dás-me a mão e eu coro; convidas-me para sair e eu hesito; brincas com os meus caracóis e eu gosto; bebemos chá e ficamos ébrios; passeamos à beira-rio e pode ser que nos beijemos. No nosso amor, não somos só amantes, mas somos cúmplices. E companheiros. Olhas para mim e lês-me nas entrelinhas. Olho para ti e sei-te de cor. Sorrio e mergulhas nesse sorriso. Abraças-me e absorves-me inteira. Dizes-me «amo-te» e eu acredito. 
O amor que me ensinaste é puro, é natural, é biológico, sem corantes nem conservantes. Mas deixa-me contar-te um segredo: nesta era, que já não é minha, já não é tua, já nem é nossa; o nosso amor, ainda encanta!" 


Ana Rita da Silva Freitas Rocha

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