domingo, 9 de janeiro de 2011

O Encontro

No respaldar dos dias que escorrem vamo-nos encontrando, a nós e a todos os demais, tantos quantos se dividem connosco.
E como de encontro se trata, de cerimónia assim é.
Começamos, invariavelmente, por enfeitarmo-nos: no coração e no corpo.
Mais do que nunca, a pele ganha uma maciez aveludada, o odor transporta-nos para todas as primaveras de campo e cresce a magia de um olhar agora transportado para um universo tão menos longínquo quanto mais promissor.
Também no coração se instala a festa da Vida.
Ali começam por nascer todos os enlevos, o toque daquele relógio é, agora, de um diferente fulgor e a História de todas as história tem ali o seu prólogo.
E, então, se seguem os ritos, quantas vezes sem cânones, muitas vezes com aquele medo que o não é, mas sim uma medida diversa de devaneio e embaraço mitigado pelo ensejo, quando não pelo desejo, de se ser o que já se é: nós e o outro.
E vem uma palavra, segue-se um gesto e logo, logo um olhar, quase sempre um sorriso e já não somos nós!
Somos nós e as imensas gargalhadas de miúdos ladinos pela enorme traquinice que enfabulámos, encantados pela sucessão de palavras loucas que dividimos tanto quanto pelo abrigo que é a concha das mãos do outro que sempre consigo nos tem.
E em cada momento em que, como velas ao vento, sentimos rumar, seja qual for do destino daquele sopro, já que agora, que tudo é novo e de brilho, sabemo-nos ímpares: pois um busca o outro, buscando-se a si no outro, pois o outro é já um eu, sendo também ele.
E tecem-se sonhos, filigrama de almas com Vida, e em nós novos pedaços encontramos, aqueles que nem sabíamos ter: as lágrimas prenhes de um novo contentamento, este mais doce e feliz, mas intenso e cúmplice; as palavras agora incontidas que antes eram enoveladas em metáforas ricas de sons e imagens mas paupérrimas ao dizer; a liberdade de sentir que o novo será sempre novo porque queremos fazer dele a novidade de viver, a renovação de cada segundo em que a Vida se nos oferece.
E descobrimo-nos no milagre do encontro, do encontro que é, pois, um milagre.
O milagre de estar não só vivo, mas de viver, de se encantar com os fiapos, com os véus e o translúcido; o que, de tão vago, parece não existir mas é a corda mais encorpada do nós.
O murmurio do "amo-te".




Da verdade do amor


Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor

José Tolentino Mendonça



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