segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Verdadeira Família


Tudo o que é importante, entendo eu, suscita uma preparação.
O Homem só consegue embeber-se da gratitude quando reserva em si um espaço para a deter, como que um cerimonial interno para receber, como uma verdadeira benção, tudo aquilo que recolhe da Vida.
Um desses momentos é, para mim, o Natal.
E, esse já começou.
Sim, para mim é já Natal pois que começou o tempo de percorrer, passo a passo, o Caminho para lá chegar e, dessa forma, entesourar o que de novo e tão belo desse tempo há, sempre mas sempre, a recolher.
Tanto quanto a esperança do nascimento de um bébé - que em quaisquer circunstâncias é sempre sinónimo de imensa alegria, desejo pela Vida nova que consigo trás e ventura pela mudança que carreará para o Mundo pela transformação que transporta uma nova Alma - é ainda a renovação dos votos da fraternidade de uma família que, tão diferente das demais, soube transportar dessa diversidade a renovação e uma nossa forma de viver.
Jesus Cristo, o bébé, é fruto de uma encarnação diversa; Maria é uma mulher diferente e José uma homem que soube aceitar tudo o que era novo - afinal as familias alternativas começaram com o filho de Deus!
Esta é uma inspiração para todos os Homens que já decidiram viver, não é apenas sobreviver, nem mesmo respirar - para todos os que perderam o medo de sofrer por ver uma mesa meio vazia numa ceia de Natal ou de arriscar a encher a casa, de novo, com uma nova e lindíssima família.
José é o padrasto de Jesus Cristo, mas foi o melhor dos pais: foi um pai do coração!
No primeiro passo deste Caminho para o Natal vivi a alegria de o relembrar.
Vi um pai do coração como José - também ele foi infatigável, também ele lutou pela alegria e pelo bem-estar de dois meninos com os olhos cheios de sonhos e fez a magia acontecer: fez surgir a mais bela árvore de Natal com o presépio mais encantador aos seus olhos.
Como nunca antes!
E como sempre acontece, tal como ocorreu naquele dia belíssimo, lá na Galileia, também ali as estrelas brilharam mais e os corações inundaram-se de Amor. 


                                       



Os laços que te ligam à tua verdadeira família não são de sangue - são de prazer e de respeito mútuos.
Richard Bach

                                                    





                                     

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Vampiros de Almas

Todos os seres são seres de Luz!
Cada um de nós, cada pessoa, tem um pedaço do Universo contido no seu coração: a marca da sua comunhão com o Todo e com a intemporalidade.
Por infelicidade há quem ainda não o saiba.
São aqueles que, por isso, se tornam vampiros de almas: os que sugam a Luz das almas vizinhas.
O medo de não saberem quem são, a insegurança que lhes provém de não serem os Deuses que sonharam ser, o desejo de ter o Mundo a seus pés e o domínio do que é a Vida - não a sua, mas sobretudo de quem a seu lado caminha, semeia-lhes o desespero.
São Homens em desatino cujo alívio passa por infligir dor: ou são as bofetadas certeiras que desfiguram, ou as perseguições cerradas que aprisionam, as humilhações sibilinas que reduzem ou mesmo os actos que travestidos de amor nada mais são do que mero exercício da mais vigorosa posse e, por isso, do maior dos ódios.
Em qualquer destes gestos o desvario é tal que chegam a dizê-los prova de um amor ímpar, aquele que apenas se diz por gestos.
E gestos tão assombrosos quanto de desespero: pois para eles, aqueles Homens, o Amor apenas o é se for assombroso e de desespero.
Um Amor possuído: aquele em que quem é "amado" é já nosso, não por fazer parte de nós e dos nossos sonhos, mas sim porque, qual objecto, o detemos.
São Homens fechados no seu cárcere - ou aquele em que nasceram ou no que construíram para si - onde não entra réstea de Luz, de liberdade e muito menos de dignidade.
E transportam para os seus reféns essa escuridão, sugando-lhes os sonhos e marcando, indelevelmente, as suas almas até à eternidade.
Depois do jorro da violência nunca mais nada é igual: as cicatrizes são marcas que o Tempo nunca apaga, há uma parte de nós que morreu porque foi morta e a nossa memória acutila-se.
Mas, como sempre, o Homem é bom: sabe salvar-se!
Há, sempre um dia, em que o rasgo de liberdade e o da dignidade o assombra e, de tão, pujante, esse rasgo ilumina-o, ditando-lhe que não mais viverá sem liberdade, sem dignidade e sem sonhos.
Então, esse Homem, deixa ir a sua parte que morreu, mira de soslaio as cicatrizes que lhe enfeitam a sua Alma e sabe que os grilhões que havia colocado em si mesmo se soltaram para sempre.
E descobre-se um Homem nascido de novo, feito por si.       




Violada


Possuíram-te nas ervas,
Deitada ao comprido
Ou lívida a pé:
Do estupro conservas
O sangue e o gemido
Na morte da fé.

Chegaste a cavalo
Trémula de espanto:
Esperavas levá-lo
Com modos de amor:
O fátum, num canto,
Violento ceifou-te
O púbis em flor:
Dou-te
O acalanto
Mas não há palavras
Para tal horror!

Vem ainda em cós, mulher,
Limpa as tuas lágrimas no meu lenço:
Nem pela dor sequer
Eu te pertenço.

O cavalo fugiu,
Deixou-te em fogo a fralda:
Que malfeliz Roldão
Para tal Alda!
Ao frio, ao frio,
Tinta de ti é a água e sangue o chão.

Ponta Delgada a arder
Do próprio pejo, quis
Em verde converter
O incêndio do teu púbis.

Mulher, não me dês guerra,
Oh trágica enganada:
Tu és a minha terra
Na carne devastada
Como a Ilha queimada.

Vitorino Nemésio

domingo, 21 de novembro de 2010

A busca da simplicidade

Nestes tempos modernos: os da eficiência, da eficácia e do planeamento, até do mais absurdo - deixando-me estupefacta quando ouço alguém dizer que "planeia ter um filho daqui a dois anos" ou apenas dedicar-se à "sua vida pessoal quando tiver uma sólida posição financeira" - damos conta de um Homem para quem o culto é o do "ocupar-te-às até à morte".
É a chamada "Tirania do Fazer" pois que, ainda que nada faça, este Homem exibe ao Mundo como se dedica ao importante - a eficácia - e mostra, igualmente - o que lhe dá virtude - o quanto está indisponivel para as "coisas menores", desde logo para os que vivem em seu redor.
É aquele para quem os pequenos-almoços são já reuniões de trabalho, a secretária ou os outros colaboradores não passam de mais um instrumento necessário ao trabalho - de quem muitas vezes nem o nome sabe e no Natal presentea com a caixa de bombons que a eles mesmo mandou comprar, o que olha o Mundo de cima porque já tem medo de olhar nos olhos de quem se lhe depara, pois afinal isso é mesmo humano e para quem a realização máxima é mesmo exibir o carro desportivo de grande cilindrada junto dos seus pares quando vai àquela reunião tardia, aquela de que ele gosta mesmo de ir porque assim lhe permite estar longe das pequenas cabeças loiras, que, ainda de vez em quando, lhe vão pedindo "Pai, conta-me uma historia".
Este é o Homem para quem é fraqueza estar doente ou fatigado, tirar uma folga para ir respirar ou assistir à representação da Ovelha na peça da Festa de Natal, afinal ver a sua filha dizer umas pequenas palavras, quase sempre envergonhadas e titubeantes, mas inesquecíveis, sobretudo se o forem para uma plateia que não a do coração.
É o Homem pleno de gadgets, atulhado de convites, com uma notoriedade única mas o unico zumbido que consegue ouvir é o do vazio.
É aquele que até no lazer não pode ficar inactivo: ou são as actividades desportivas programadas ao segundo, ou as visitas guiadas intensivas, chegando, mesmo ao absurdo de não se deixar dormir sem despertador. Pois, de outra forma, como conseguiria conviver com a culpa do "dolce fare niente"?
Eu, que nada sei, apenas me permito mirar.
E digo que este é um Homem absolutamente desencontrado de si, infeliz porque nem sabe quem é, um verdadeiro prisioneiro de si mesmo.
Também eu adoro trabalhar, e fazê-lo tão bem como possa, melhor a cada instante, com o ímpeto de saber todos os dias quase novas, aprendendo um pouco mais. E, por isso, tenho que planear, gerir, fazer muitas coisas e viver a mil, às vezes, a dois mil à hora.
Mas como poderia fazê-lo sem contemplar a Vida, olhando por tantos minutos o balançar das àrvores que são as minhas vizinhas predilectas, partilhando o jantar que cozinho para todos os que amo - e que começa no aroma até ao petiscar atrevido, embevecendo-me sempre com um sorriso?
E como seria eu sem chorar ao ler aquele poema ou sem ouvir a dormir o telefonema noctívago e aflito da "sister" mais nova que sempre precisa de mim ou sem cantar ópera com a miudagem no caminho para a escola?
Nunca!
Só nos momentos de abandono, de busca da simplicidade, que é afinal, o nada, o Homem se pode encontrar.
Na essencia do Homem, como na da Natureza, está a plenitude: "deixar ir para deixar ser".
Sejamos Homens!




"Paciência e duração de tempo fazem mais do que força ou raiva" La Fontaine.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A ilusão do Poder


Desde tempos imemoriais foi o Homem ensinado que a sua força era tanto maior quanto excelso fosse o poder que detivesse.
Assim nasceu o principio da guerra, a razão do desejo do domínio.
Muitas armas soaram, muitos homens tombaram, tantas mulheres foram flageladas e uma mole de crianças aprenderam a viver sem o calor do afecto, degustando, antes, o travo amargo da ausência, da doença e mesmo da morte.
Para o justificar, o Homem, que se sabe inteligente mas se esquece humano, criou ideologias, defendeu teses, criou teoremas. Defendeu, mesmo, o indefensável !
E dos tempos, do que apelidámos arcaico, em que o Homem coberto pelas peles dos animais que matava para, além de obter alimento, também o abrigo, se fazia munir de um pau – a famosa moca, eis-nos chegados ao presente: e nada mudou!
Tudo igual, apenas mais sofisticado e, por isso, mais violento.
Convencido pela ilusão da importância do poder, qual bebedeira, o Homem contamina almas, flagela corpos, destrói pessoas, desta forma minando gerações: um verdadeiro genocídio emocional.
Coagem-se trabalhadores para produzirem aquilo que não sabem e nem podem, arrasam-se almas grandes apenas porque o são, vilipendiam-se crianças tornando-as em pequenas adultas mascote para exibição publica, subjugam-se mulheres apenas porque os são – mulheres, violentam-se os idosos, os deficientes, aqueles outros com alguma carência porque mais precisam do outro: todos eles são os troféus de uma guerra surda do Homem que se quer mostrar o melhor, o maior. Em suma, o poderoso.
Mas eis que a novidade surge – há sempre um dia em que a harmonia se sobrepõe ao caos.
É que a dignidade do Homem é de tal forma sublime que, de repente, e quase sempre de rompante - como a onda de um tsunami - se impõe e então, a violência dá lugar ao caminho da descoberta de si, da sua liberdade e da sua força e valor únicos.
E faz-se luz: o poderoso, aquele Homem que dizia tudo saber e a todos dominava, subjugando-os, e levando-os a humilharem-se, é afinal o que tem medo de si, padece da insegurança de estar vivo e sabe que nada tem porque vive no vazio.
Era, afinal, um gigante com pés de barro, porque um morto-vivo: não tem Alma.  




Meditação Sobre Os Poderes

Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta.


José Jorge Letria

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Memórias

E de repente, o vazio.
E de rompante, sem aviso, uma nova etapa se nos afigura no Caminho.
Mais um belo desafio!
A aventura de viver.
Nem sempre com os olhos plenos de Vida, por vezes sem aquela Luz imensa que nos inunda nos dias de claridade única, faltando aquele balanço tão doce do tique-taque costumeiro de um coração maior, mas sabendo-nos vivos! Com os olhos abertos ao Mundo, com cada um dos dias que a Vida nos oferece como dádiva para saborear, momento a momento, e com um coração que palpita pelo Amor maior que descobrimos sermos nós, naquele que foi o maior de todos os encontros.
"Tudo é foi", diz o poeta, um dos maiores.
Desminto-o.
Se é certo que o Tempo usura o que é perecível - o Homem envelhece, as pedras tomam novas formas, a madeira apodrece - e faz esmorecer muitas memórias - não lembro qual a ultima vez que visitei um cabeleireiro, nem sequer o modelo do telemovel que uso - certo é que todas as memorias do afecto estão intactas, não se fazendo sentir o efeito do grande Mestre: como esqueceria o primeiro olhar que troquei com cada um dos meus filhos, como olvidar o espelho do olhar do homem que mais amo, como lançar no esquecimento o calor do abraço que recebo de cada um dos meus pais e a doçura sempre presente de cada uma das palavras dos meus amigos, aqueles anjos disfarçados de pessoas, que voam para o meu coração quando o pressentem doer.
São estas lembranças de afecto, de amor fino, que nos tornam melhores, mesmo quando a Luz é baça, ainda quando o coração bata a um só ritmo, o lento e o olhar se queda - fazem-nos saber pessoa.
E quem se sabe pessoa nunca deixa de saber, também, ser sempre o princípio e o fim, semente de revolução, epopeia e sempre, mas sempre, Caminho. Um Caminho. Seja ele qual seja.
As memórias são o prólogo de um livro aberto, o que já foi escrito e lido a tantas mãos e com tantos olhares - a Vida já vivida - mas, são, principalmente, o esteio do que está por prosar.
É, por isso mesmo que, um Homem sem história é um Homem sem amanhã.
Ao honrarmos a nossa historia, dizemos sim ao futuro.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Amor é uma forma de Vida

Seja como seja em cada um de nós há um sobrevivente.
Nenhum Caminho segue, sempre, uma forma plana: as convulsões são próprias da natureza e, como tal, do Homem.
Nenhum Homem que viveu - e viver não é, definitivamente, respirar - deixou um rasto linear de si, da sua história e de estórias: tudo é, ao invés, um emaranhado de Vida difusa, postada em acontecimentos díspares e aparentemente desconformes e o susto, às vezes, toma o lugar da expectativa pelo devir.
Momentos há em que os caminhos se parecem destroçar sem mais e, com eles, vidas imersas no caos de uma vertigem de dor: há Homens que chegam a ter inscrito no olhar a desilusão da falta da alegria; há mesmo circunstâncias em que a infelicidade lhes tolhe o sangue!
Mas viver é, isso sim, um tumulto, um ofegar constante que vem, não do corpo, mas da Alma: uma Alma que respira uma constante mudança, uma aprazada e volátil mudança.
Dos destroços da Vida e de tudo o que a maré do Mundo traz ao cais de cada Homem só o Amor tem o dom de reconstrui-lo: o Amor, a grande revolução silenciosa que tudo transforma.
Depois de cada tsunami, dos quase tantos que cada Homem tem a virtude de poder sentir, só o Amor pode pejar nova vereda, lançar um novo atavio, semear um novo sorriso: mesmo no caos, com Amor, se constrói um ninho.
O Amor é, por isso, uma forma de Vida.
O Caminho da Vida e a Vida do Caminho são sempre fruto um do outro, isto quando o Homem tem a coragem de olhá-los desgarradamente, ainda que a si mesmo se mire em soslaio, com a única condição de ter um coração pleno: Amar.



Serenidade da Alma

Não examinar o que se passa na alma dos outros dificilmente fará o infortúnio de alguém; mas os que não seguem com atenção os movimentos das suas próprias almas são fatalmente desditosos.
(...) Ser semelhante ao promontório contra o qual vêm quebrar as vagas e que permanece firme enquanto, à sua volta, espumeja o furor das ondas.
- Que desgraça ter-me acontecido isto!
Não, não é assim que se deve falar, mas desta maneira:
- Que felicidade, apesar do que me aconteceu, eu não me mortificar, não me deixar abater pelo presente nem me assustar pelo futuro!
Na verdade, coisa idêntica poderia suceder a toda a gente, mas bem poucos a suportariam sem se mortificarem. Por que razão considerar este acontecimento infortunado e aquele outro feliz?
Em resumo, chamas de infortúnio para o ser humano aquilo que não é um obstáculo à sua natureza? E consideras um obstáculo à natureza do ser humano aquilo que não vai contra a vontade da sua natureza? Que queres, então? Conheces bem essa vontade; aquilo que te sucede impede-te, por acaso, de ser justo, magnânimo, sóbrio, reflectido, prudente, sincero, modesto, livre, e de possuir as outras virtudes cuja posse assegura à natureza do ser humano a felicidade que lhe é própria? Não te esqueças, doravante, contra tudo aquilo que te possa trazer aflição, de recorrer a este princípio: «Acontecer-me isso não é uma desgraça; suportá-lo corajosamente é uma felicidade.»
                              
                                                                     Marco Aurélio

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A diferença é o Amor

Marcos de Vida são indistintamente marcos de coragem: apenas quem tem o arrojo de viver tem, em concomitancia, o desprendimento de se deixar marcar.
Sempre, em constante, vivemos momentos de desafio, de mudança, de empenho com o que nos é desconhecido - " o Homem é feito de mudança", dizia o poeta - esse é o nosso timbre de Vida.
Aceitá-lo, viver esta inevitabilidade, é abrir os braços do coração ao melhor do Mundo, ao melhor do Homem, ao melhor da Vida; sobretudo, ao melhor de cada um de nós.
"Quem sou eu?"´: já não tem resposta!
Esse fui eu, além, quando vivi num outro momento, num outro espaço e com a outra circunstância de ser eu: um outro.
Aqui e agora: sou o Homem novo!
Aquele que, quer esteja no pico mais elevado da mais alta montanha, luxuriosa certamente, como perto da miséria que o Homem se vai emprestando a si mesmo, junto da criança que chora pela falta de alimento ou daquela mãe que, de modo desenfreado busca o alimento com que tem de sacear o seu filho, ou ao lado do velho tecnocrata que se querendo mostrar digno das honrarias do Mundo e da vassalagem do Homem, sabe que tudo está em si para a construção do infinito: ele é o pedaço intocável e imperecível que, nada nem ninguém, poderão nunca atingir porque obra de um construtor único, perfeito e imortal.
O Homem que sabe que a única ferramenta da diferença é o Amor: o Amor a tudo em que toca, a tudo o que desenha nos seus sonhos, a tudo o que realiza; Amor sobretudo a si mesmo, tanto quanto a todos os outros - a própria definição de Amor: ama os outros como a ti mesmo.
Ser diferente é ter a coragem de ser único, de se definir como único e nunca olvidar que nada, nem ninguém se faz igual a si.
É, antes de mais, saber que a impressão de cada um dos seus dedos, a pegada que deixa na areia, o olhar com que mira e o odor que lança são singulares e incontidos: é saber-se um universo.



O Amor é a unica flor que brota e cresce sem a ajuda das estações" Khalil

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Da Saudade

Há muito que fui convocada pela saudade: essa belíssima película que nos recobre sempre que deixamos para trás - no tempo, no espaço ou em nós - pedacinhos com que fomos sendo, passo a passo, construídos.
Se hoje aqui estou, se olho para o presente como tal - um enorme presente!, é porque sei que vivi.
A saudade, não mais do que a ternura envolvida pelo desejo de viver de novo, é uma benção por que pudemos ser tocados: lá longe, num lindo recanto, encontro o momento em que senti nascer o meu filho; um pouco mais perto, miro aquele outro segundo em que a Vida me ofereceu a minha menina; não deixo nunca de ver os momentos únicos em que o meu pai brincava comigo ao fim da tarde, depois de me ir buscar à escola e me oferecer o gelado, nem aqueles em que, salpicando todo o Caminho, sempre me encontrei nos olhos de quem amei, de todos os que me mergulharam no seu coração e que, desde então, tatuam a minha Alma.
Não olvido, claro, os momentos em que firmei a eternidade com cada um dos meus amores: encontro-os em mim como memória de um tempo em que a inocência era, ainda, mais premente.
Hoje, neste presente - um presente embrulhado numa lista de papel de todas as cores do arco-íris e com um laço da cor dos olhos que, de soslaio, me descobrem - sei que vivi pelas memórias de quem fui sendo e de tudo o que resgatei para mim.
Melhor, sei que vivi muito e muito bem pela saudade que me assola: a vontade de viver.
É que a saudade nunca é uma imagem, um instante só que depois se desvanece; a saudade é uma força de Vida que nos leva do passado ao futuro, oferecendo-nos um presente: o presente.
Esta ternura tão especial relembra-me sempre que o passado é uma nebulosa que apenas, ao longe, muito devagar e com os olhos plenos de Vida, podemos um dia tentar descobrir; nebulosa que tendo ficado para trás sempre faz brilhar, ainda mais, todas as estrelas que hoje são o nosso tecto de firmamento e posta os olhos no futuro, permitindo-nos sempre ver mais além.
Amo a Vida mas sei que sem saudade não a saberia sentir.



Saudade é ser, depois de ter
Guimarães Rosa