terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Desalinhado

Para além das rendas que a cobrem e a armadura que o esconde - parece que foi assim que nos instruíram - há Vida: uma mulher e, claro, um homem.
A aparência, o retrato com que nos emolduramos, por mais belo que ele seja, não é "vida em movimento"!
Polaroid, tão-só, onde o real pulsar nunca se sente; é escasso.
Naquela mulher como naquele homem há aspirações e inspirações, há votos e desejos, há misérias e vitórias.
Eles que são pegada que ficou de um rastilho, mas também, catalisador de gente.
Dia-a-dia, passo a passo, vivendo, recolhem os sonhos como verdadeiros balões, daqueles coloridos e prenhes, como crianças alimentando a crença que com eles, atado um em cada mão, voarão pelo firmamento do Amor, da alegria e, quem sabe mesmo, da imortalidade.
Sim, porque o Amor torna-nos imortais!
Mas se o Homem está cunhado pela marca da memória, também, o distingue a precaridade: "tudo é foi, nada acontece", diria o poeta.
Assim, muitas vezes desalinhado com o prumo que se deu, ele conhece o desatino: trémulo perante o dealbar, apavorado em face do crepúsculo. E segue como os meninos que já fomos, sentado em euforia num daqueles carrinhos com rodas de rolamento, pela rua mais íngreme, destinado a viver a maior das suas glórias ou a sentir as mãos a queimarem no asfalto.
Perante essa dor, sentindo-a, resta-lhe mirar-se no espelho da sua Luz e encontrar, no fundo de si, a teia, a finíssima teia, que o tecerá para a próxima jornada; aquela que é, sem engano, a melhor de todas, excepção feita as mil outras que se lhe seguirão.
E encontrada ela, enovelando-se nesse manto, ei-lo desperto e, olhando aquele firmamento que lhe surge como guia, suspira "é este o meu Caminho!"




De Noite


Quando me deito ao pé da minha dôr,
Minha Noiva-phantasma; e em derredor
Do meu leito, a penumbra se condensa,
E já não vejo mais que a noite imensa,
Ante os meus olhos intimos, acêsos,
Extaticos, surprêsos,
Aparece-me o Reino Espiritual...
E ali, despido o habito carnal,
Tu brincas e passeias; não comigo,
Mas com a minha dôr... o amôr antigo.

A minha dôr está comtigo ali,
Como, outrora, eu estava ao pé de ti...
Se fôsse a minha dôr, com que alegria,
De novo, a tua face beijaria!

Mas eu não sou a dôr, a dôr etérea...
Sou a Carne que soffre; esta miseria
Que no silencio clama!

A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama...
Teixeira de Pascoaes

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Chegar a Casa


As marcas da emoção são, quase sempre, como que cunhadas a ferro quente na Alma e, por isso, são eternas.
Quase todos nos lembramos da alegria como recebemos, na infância, o presente mais desejado e do qual, quantas vezes, nunca mais nos separamos. O meu é o "quadro mágico" de lousa com as contas às cores com um pequenino banco, onde tantas letras escrevi, onde tantos numeros inscrevi, onde tantas casinhas desenhei que está já gasta aquela que sempre foi a mais querida das folhas. Ainda o conservo comigo.
E da expectativa nervosa do primeiro dia de escola? Ninguém nunca mais deixa de recordar: mochila nova, cadernos, canetas e lápis tudo a estrear. Sem esquecer as batas alvas ou aos quadradinhos ou mesmo a roupa e os sapatos a brilhar que nos vestiram para conhecermos os novos amigos com que, umas vezes, trocámos segredos e outras tantas amuámos.
Quando deixámos de ser crianças almejamos encontrar o outro, o que nos oferece o Amor e daí nos fica sempre o primeiro encantamento, o primeiro olhar, o primeiro beijo.
Da vida mais adulta, consoante, os lagedos percorridos assim as memórias.
Há quem retenha como inesquecíveis os momentos em que partilhou o sonho da eternidade com o outro de quem sonhou fazer parte, outros há que buscam sempre na memória o dia em que se sentiram "o dono do Mundo" porque se sentiram tão grandes como ele e com ele seguiram no sonho, ao passo que há quem traga sempre na retina, quanto no coração, o momento em que ofereceu Vida.
Verdadeiros relicários, estes pedaços de Vida são magia.
Mas a sua verdadeira magia só nos toca quando, um dia, temos a alegria de torná-los um património que não é só nosso.
O meu "quadro-mágico" ganhou novas cores quando, mais de trinta anos volvidos, foi também lousa para os desenhos do meu menino e, ainda depois, a minha menina quis aprender a contar com aquelas contas de tantas cores, ao mesmo tempo que rabiscava as cores dos vários paus de giz que lhe ofereci pela primeira vez.
E é sempre uma aventura quando podemos recordar, lado a lado, com velhos amigos os momentos da escola e as pequenas aventuras da adolescência: desde as cerejas temporãs compradas à hora do recreio até ao primeiro beijo dado nas traseiras da escola secundária.
Hoje, entendo, ainda melhor, o que é partilhar as marcas da emoção: seja aquelas em que me senti, literalmente, a dona do Mundo porque os sonhos que tinha sonhado vieram ter comigo, mas também aqueles momentos em que a emoção me abrasou, mas pela dor e pelo medo.
Aquelas em que eu, tal qual uma menina atrapalhada com a primeira conta de dividir (porque há coisas que parecem nunca fazer sentido!), senti que nunca mais seria capaz voltar a ser quem era.
Essa uma dádiva que apenas encontramos quando sentimos que somos nós o grande, o enorme amor de nós mesmos, mas, ainda mais, quando encontramos esse amor estampado na Luz de um olhar que nos mira de soslaio - um olhar de profundo afecto, de entrega única. De encontro.
É o "chegar a casa" depois de uma epopeia, que é a Vida, e sentir inaugurar-se um tempo em que se é amado porque sim e se ama porque se ama.




Amo-te Muito, Meu Amor, e Tanto


Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O Caminho

Passo a Passo sigo o meu Caminho.
Este Caminho é a jornada que se iniciou ao primeiro raio da aurora da Vida que me ofereceram e o que me levará até à eternidade: assim o pressinto, assim o vivo, assim o ofereço, também.
Jornada que começou sob a luz de um luar de Dezembro, frio mas brilhante, tingido apenas pela humidade das lágrimas que irromperam nos olhos de uma mãe e de um pai que, ainda surpresos, viram a sua menina chegar mais cedo, tão rápido e inesperadamente.
E toda esta jornada se faz, sempre, sob esse mesmo olhar: sempre com um assombro de expectativa doce, de suave protecção e com uma dádiva permanente de Amor.
Um Amor, que como qualquer Amor, é sempre pleno e feliz.
Sigo, hoje, neste Caminho, bordejando-o, com dois pássaros à solta.
Lindos, loucos, livres e sempre, mas sempre, libertos.
Sempre prontos a planar pelo Mundo e pelos mundos, com estórias e fazendo a nossa História: nunca serão os meus filhos porque só eu tenho a ventura de ser sua mãe. Eles são Mestres como poucos, eles foram os meus professores porque, eles sim, me ensinaram o que de mais importante eu já entesourei deste pedaço de Caminho que já perfiz.
Com muitos outros que fui encontrando. E de todos colhi uma lição.
Encontrei Luz onde nunca a vislumbraria e, nessa medida, sei que todos, mesmo todos, têm a sua própria Luz.
Dei de caras com Homens de uma generosidade sem fim: os que tudo fazem para tornar o Mundo um lugar, não só melhor, mas muito mais bonito.
Amigos, tantos! Pessoas belíssimas, com uma Alma límpida e uma ternura imensa a escorrer pelo canto dos olhos porque os seus corações estão já inundados de tanto que é o Amor que aí vive: não são os que "dão a camisola pelo amigo", são os que despem a pele para lhe a oferecer!
E, se de meu nada sei, e assim é, muito aprendi com a generosidade de tantos que me ofereceram o que vão sabendo.
Também a Vida me ditou a sua lição. As suas lições.
E tantas foram já as que dobrei nas pequeninas algibeiras que empregnei na Alma: a maior é a de que o mais importante é mesmo o Amor - nada se afigura tão alvo, nunca haverá um tal estremecimento que faça rolar o Mundo e nasce, cresce e vive eternamente.
O Amor é mesmo maior do que a Vida!
Muitos sonhos me acalentam; muitos, muitos mais do que aqueles que eu trago em mim.
Mas eu faço-me do sonho e do sonho me faço e, por isso, vivo condenada a ser feliz. Muito feliz.