segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Passo a Passo, eis-me a Caminho
Passo a passo, eis-me a Caminho!
Vinda de um Tempo que pouco a memória arrecadou, pois a saudade quis apenas consigo rostos que à Alma sorriram, eis o Presente.
Pouco me deixei aprender, é que quis ser quem sou, eu.
Nunca o poderia sem a liberdade de dizer não, sem o desgosto de me ver partir, com a diferença que é desagrado de tantos.
Fiz-me nos erros, não de cálculo, mas de dor, daqueles que me obrigaram a correr pelas noites até ser dia porque o vazio é uma lâmina que quase nos quer fazer esvair.
Alinhavei-me com mãos alvas como a bata que tanto ansiei trajar naquele primeiro de Outubro, o do ano da Liberdade, a que vesti naquela escola onde a letras passaram a ser todas as histórias dos livros e as mil noticias dos jornais.
Construíram-me as melodias, as palavras dos poetas, o amanhecer e toda a magia do olhar tingido pelas luzes coadas; sobretudo a sua Luz.
Mas não era eu sem o deserto em que me reencontrei, sem todos os sonhos, sobretudo os que perdi, e, claro, sem o sorriso, todos os sorrisos.
E continuo a procurar-me.
Vejo-me no prodígio de duas Vidas imensas, dois sinais de ventre rasgado; encontro-me no calor daquele rosto, aquele que numa madrugada fria, depois dos nossos olhos se renderem, passou a ser o meu porto; sinto o aveludado, que é pensar de amigo.
E sigo.
Sei que pouco importa, para além da liberdade que sou, da dignidade que resgatei e da serenidade que busco sem cessar, pois todos os Presente são o Futuro, momento de Eternidade.
Vida
Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida
será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico
não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.
Agostinho da Silva, in Poemas
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