Olhar o passado com um olhar de mágoa ou desdém é desavisado, digo eu. Ficou um parte do que somos, por lá trilhámos uma parte do Caminho.
Lá está, sobretudo, aquilo que também foi, então, sonho e presente.
Um Homem que se constrói, de pleno em pleno, acaba sempre por descobrir que não são os ângulos que fazem marca pelo Mundo, é, sim, o olhar redondo que vamos ganhando ao afeiçoar cada momento vivido: seja ele um instante de fulgurante alegria ou um desafio que nos faz temer, até, que venha a ser manhã.
E descobre no hoje, aqui e agora, que aquele passado foi uma semente que agora é presente.
Presente porque é hoje, presente porque é o fio de Vida que importa honrar como de maior prodigio, presente porque, também, a cada um de nós cabe estender o seu tapete vermelho ao melhor que em si existe e dá-lo de volta ao Mundo.
Sei que vivi tudo o que é passado com a alegria de quem tem um presente e degustei cada pequeníssimo pedaço como um manjar para Deuses e por isso estou sem mácula. Inteira e íntegra.
No hoje, ao longe, miro o amanhã.
Jogo de sombras ou desejo antecipado?
Vida apenas; mas Vida que se anuncia como flor em botão.
Viver no absoluto é sentir, sabendo, que nada nos afasta do que é Caminho, pois cada hora é uma hora tal como sol é sempre aurora e Paris uma festa: um sonho com uma fita enlaçada.
Absoluto que é pedaço da eternidade que nos brinda, de onde vimos e para que estamos devotados; pois nenhum Homem é jogo de perecibilidades nem brinde de vazio, muito menos equação de invariáveis.
Homem é sinonimo de tudo o que é belo, alegre e amoroso e, por tal, pleno.
Assim Homem.
Põe quanto És no mínimo que Fazes
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis
